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O Estado da Nação dos 50 anos: Entre a memória da luta e a visão de um novo Estado angolano

Jornal OPaís por Jornal OPaís
16 de Outubro, 2025
Em Opinião

O Discurso sobre o Estado da Nação, proferido pelo Presidente João Lourenço, em 15 de outubro de 2025, é uma declaração política de grande densidade histórica e estratégica, que combina celebração histórica, prestação de contas governamental e desenho de uma agenda estratégica para o médio e longo prazo.

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O discurso traça uma narrativa de resiliência, da colonização, passando pela guerra, até à reconstrução nacional. O Presidente ancora a legitimidade política na narrativa histórica dos 50 anos e converge a retórica patriótica com medidas técnicas (reformas económicas, estratégia de endividamento, programas de electrificação, municipalização da saúde e educação) que, segundo o discurso, tornam possível uma trajectória de prosperidade inclusiva.

A ideia central do discurso é que Angola entrou numa fase de transição que combina consolidação macroeconómica com uma política activa de diversificação e investimento humano.

Entre os pontos altos do discurso do Estado da Nação, o Presidente João Lourenço destacou, em primeiro lugar, o balanço social e de saúde, apresentando os avanços registados na saúde pública. Segundo o Chefe de Estado, Angola passou de uma rede de apenas 320 unidades sanitárias em 1975 para 3.355 na actualidade.

Foram igualmente mencionados o aumento do número de camas hospitalares, a introdução de serviços especializados como a hemodiálise e as cirurgias robóticas, bem como a redução das taxas de mortalidade infantil e materna. O discurso também deu grande destaque à educação e ao capital humano, pilares centrais da visão presidencial para o futuro.

O Presidente assinalou a redução do analfabetismo e o expressivo crescimento do número de alunos, que ultrapassa agora os 9,6 milhões matriculados no ano letivo 2025/2026. O ensino superior também registou grandes avan

ços, com mais de 330 mil estudantes distribuídos por 106 instituições em todo o território nacional. No campo económico, a consolidação macroeconómica foi outro ponto forte do pronunciamento. O Presidente sublinhou a redução do rácio da dívida pública, que passou de 115,9% do Produto Interno Bruto em 2020 para 55,5% em 2024, fruto de políticas de rigor fiscal e de uma gestão prudente das finanças públicas.

Essa disciplina, segundo ele, permitiu estabilizar as contas nacionais e criar espaço para o investimento social e produtivo. Outro eixo fundamental do discurso foi a diversificação e o aumento da produtividade. O Presidente destacou o impacto de programas estruturantes como o PRODESI, os diversos projetos agrícolas e o MOSAP, que têm impulsionado o aumento da produção agrícola, o crescimento da pecuária e o fortalecimento da indústria transformadora fora do sector petrolífero.

No sector elétrico, Angola alcançou uma capacidade instalada de 6.300 megawatts e uma taxa de acesso à energia elétrica de 48%, resultados que o Presidente qualificou como expressivos, tendo em conta o ponto de partida e os desafios logísticos do país.

Por fim, o apelo ao perdão e à reconciliação nacional, que o Presidente João Lourenço associou à condecoração dos signatários do Acordo do Alvor. Neste contexto, o Chefe de Estado angolano transmite a ideia de que o perdão é um acto de força e de soberania moral, indispensável para que Angola avance como uma sociedade pacificada, justa e consciente da suaidentidade.

Este discurso permite identificar três cenários complementares e plausíveis para Angola nos próximos 5–15 anos: 1. Cenário principal — “Cresci
mento com transformação gradual”: se as metas macroeconómicas se mantiverem (disciplina fiscal, gestão prudente da dívida) e se
a execução dos projectos infra-estruturais e sociais for eficaz, Angola pode consolidar um crescimento mais diversificado. A expansão da electrificação, água, saúde e educação criaria capital humano e espaço para a industrialização, agro processamento e turismo. A redu
ção da dependência de petróleo será lenta, mas verificável através de ganhos em agroindústria, pescas e manufatura leve. As melhorias na inclusão financeira e nos portos/transportes aumentariam competitividade e atracção de IED.

  1. Riscos e fragilidades — “Crescimento vulnerável”: a mesma trajectória positiva pode ser interrompida por (i) execução ineficiente; (ii) corrupção e captura de projectos; (iii) choques externos (preço do petróleo, crise financeira global) e (iv) tensões fiscais se o serviço da dívi da ou défices persisterem além do previsto. A capacidade administrativa e a qualidade das instituições públicas são condicionalidades críticas. O Presidente faz referência à necessidade de continuar reformas administrativas e modernização do Estado, o que indica consciência destes riscos.
  2. Possibilidade de “viragem acelerada” se houver catalisadores externos/internos: uma entrada massiva de investimento priva
    do bem regulado, uma abertura maior ao capital humano da diáspora e parcerias tecnológicas (parques científicos, centros de inovação) podem acelerar transformação, desde que acompanhados de governação com previsibilidadedos processos. O discurso aponta para investimento em ciência e inovação (parque de ciência, FUNDECIT), que sinaliza esta ambição.

    Para que a visão e as metas delineadas no discurso do Estado da Naçãose materializem, é essencial que os diferentes segmentos da socieda de angolana assumam posturas complementares e convergentes, orientadas para a corresponsabilidade, o esforço colectivo e a ética pública.


Os cidadãos e a sociedade civil devem exercer uma responsabilidade activa, no apoio de políticas públicas que promovam a inclusão social, o desenvolvimento sustentável e a coesão nacional, mas também devem exigir transparência, prestação de contas e eficiência na execução das mesmas.

O sector privado, por sua vez, deve consolidar-se como parceiro produtivo do Estado. A estabilidade macroeconómica e o ambiente de reformas anunciados no discurso criam condições propícias para o investimento em cadeias de valor locais, particularmente nas áreas de agroprocessamento, produção alimentar, logística e turismo.

A academia e os investigadores desempenham também um papel determinante na transformação estrutural do país. É necessário que traduzam as grandes agendas políticas e económicas em evidências concretas, por meio de pesquisas independentes que avaliem o impacto das políticas públicas, desde a eficácia das redes sanitárias e programas de substituição de importações até à sustentabilidade ambiental dos grandes projectos de infraestrutura.


A juventude e os empreendedores representam, talvez, o vector mais dinâmico desta nova etapa de desenvolvimento. Devem alinhar as suas competências com as exigências do mercado, aprovei tando as oportunidades oferecidas pelos programas de formação técnica, como os centros de capacitação profissional, o FUNEA e o JOBE.


O Discurso do Estado da Nação de 15 de outubro de 2025 é simultaneamente um inventário de conquistas e um roteiro aspiracional. Fornece elementos factuais e metas ambiciosas que, quando executadas, aprofundarão a transformação socioeconómica de Angola.

Por: Edmundo gunza

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