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O Estado da Nação 2025: entre a retórica da transformação e o desafio da realidade

Jornal OPaís por Jornal OPaís
17 de Outubro, 2025
Em Opinião

I. Um discurso para um tempo de transição João Lourenço subiu à tribuna da Assembleia Nacional com voz firme e olhar seguro. Falava a um país que se prepara para celebrar meio século de independência, mas que ainda procura reconciliar os seus ideais fundadores com as frustrações do quotidiano. O momento era solene. A Nação esperava uma radiografia do presente, uma confissão dos erros e um mapa de futuro. Mas o que ouvimos, afinal, foi uma narrativa de progresso, temperada com prudência e esperança. O Presidente apresentou um quadro de transformação, de avanços e de confiança.

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Disse que a economia está a diversificar-se, que o combate à corrupção produz resultados, que há mais escolas, hospitais e infra-estruturas. E, de facto, há. A questão é outra: será isso suficiente para mudar a vida do cidadão comum? Quantos desses avanços são palpáveis fora da retórica oficial? E o que resta quando as estatísticas não coincidem com a experiência concreta de quem vive entre o trânsito caótico, o custo de vida insustentável e a dificuldade em encontrar um emprego digno? O Estado da Nação, afinal, é o que se diz ou o que se vive?

II. A retórica da transformação permanente Ao afirmar que Angola é uma Nação em “permanente e dinâmica transformação”, o Presidente procura imprimir uma ideia de movimento. Mas transformação em que direcção? Com que velocidade? E, sobretudo, com que resultados? As mudanças que o poder proclama nem sempre são aquelas que o povo sente. Nas ruas, há quem reconheça obras e iniciativas; há também quem veja promessas adiadas e uma economia que ainda depende de um único motor — o petróleo.

É legítimo perguntar: pode um país transformar-se verdadeiramente se continua refém do mesmo modelo económico que o condiciona há décadas? Transformação não é apenas construir estradas ou inaugurar edifícios. É mudar mentalidades, simplificar instituições, aproximar o Estado das pessoas, criar oportunidades. Se o país se transforma, onde estão as evidências dessa transformação nas províncias, nos campos, nas escolas, nas pequenas empresas? Talvez o Presidente tenha razão quando diz que “o caminho está a ser feito”. Mas quem o percorre? E quem ficou para trás?

III. Produzir dentro para depender menos de fora Um dos pontos fortes do discurso foi a insistência na necessidade de aumentar a produção nacional e reduzir a dependência externa. A ideia é incontestável — e patriótica. Angola tem terra, água, sol e gente. O que falta, então, para transformar potencial em riqueza real? Será o crédito ainda caro demais? A burocracia ainda demasiado lenta? Ou faltará apenas vontade política para romper com o círculo vicioso da dependência? Fala-se de diversificação económica há quase duas décadas.

Quantas fábricas novas nasceram nesse tempo? Quantos produtos nacionais conseguiram competir com os importados? E quantos agricultores receberam apoio técnico e acesso ao mercado interno sem intermediários que lhes ficam com o lucro? Produzir localmente é também libertar o país da vulnerabilidade externa. Mas pode haver verdadeira independência económica enquanto as prateleiras dos supermercados continuam cheias de produtos estrangeiros?

IV. Entre a promessa do crescimento e o custo de viver O discurso presidencial apresentou sinais de optimismo: crescimento do PIB, estabilidade cambial, redução da inflação. Mas o cidadão pergunta-se: onde está esse crescimento na minha mesa, no meu salário, na minha família? Quando os preços dos alimentos aumentam, quando o transporte encarece, quando o salário mal chega a meio do mês, que sentido tem a palavra “crescimento”? Será possível celebrar a estabilidade macroeconómica quando a microeconomia das famílias está em colapso? O país pode estar a crescer, sim, mas quem cresce com ele? A economia parece ter estabilizado, mas o custo de viver continua a subir.

E, quando o crescimento não se traduz em bem-estar, o progresso torna-se abstracto. Angola precisa de uma economia que respire nas aldeias e nos mercados, e não apenas nos gráficos ministeriais. De que vale falar de indicadores positivos se os bolsos continuam vazios?

V. O combate à corrupção e a eterna pergunta: quem responde perante quem? Os números apresentados impressionam: centenas de processos instaurados, bens recuperados, crimes investigados. Mas o combate à corrupção mede-se por estatísticas ou por confiança pública? Quantos desses processos chegaram ao fim? Quantos resultaram em condenações justas e transparentes? Quantos devolveram realmente ao Estado o dinheiro que o país perdeu? E o mais importante: mudou alguma coisa na cultura institucional? As regras tornaram-se mais claras? O cidadão sente-se protegido pelo sistema de justiça ou teme-o? O combate à corrupção só será vitorioso quando deixar de depender da vontade de um homem e passar a ser parte da consciência nacional. Até lá, continuará a pairar a dúvida: há justiça para todos ou apenas para alguns?

VI. A governação e a democracia: entre o comando e a escuta João Lourenço falou de estabilidade e coesão, valores essenciais a qualquer governo. Mas estabilidade é sinónimo de silêncio? Coesão significa unanimidade? Num país plural e jovem, a força do Estado mede-se não pela ausência de críticas, mas pela capacidade de ouvi-las sem medo.

Quando as vozes discordantes são vistas como ameaça, o diálogo transforma-se em monólogo. As autarquias continuam adiadas, a descentralização é promessa adormecida, e a participação popular ainda é um conceito mais discursivo do que vivido.

Por que razão se teme tanto a proximidade entre o poder e o povo? A democracia não se consolida com discursos, mas com instituições que funcionam, com partidos que se respeitam e com cidadãos que confiam. E, para confiar, é preciso ver o Estado a dar o exemplo.

VII. A ambição diplomática e o desafio interno O Presidente destacou o papel de Angola como mediador de paz e actor de equilíbrio regional. Uma ambição justa e digna. Angola tem história, peso e autoridade moral para liderar na região.

Mas o poder de mediar conflitos externos depende da capacidade de resolver os internos. Pode um país oferecer paz aos vizinhos se os seus próprios cidadãos clamam por justiça, emprego e dignidade?

A diplomacia é um instrumento de prestígio, mas também de responsabilidade. O mundo olha para Angola com respeito; resta saber se os angolanos olham para si mesmos com o mesmo orgulho. Ser potência regional é um objectivo nobre. Mas de que vale ser potência fora de portas se, dentro, ainda se luta contra a pobreza, a exclusão e a burocracia?

VIII. O que ficou por dizer O discurso foi longo, mas não infinito. E, como todo o discurso político, deixou ecos de silêncio. Não se ouviu muito sobre o ambiente, sobre as mudanças climáticas, sobre o impacto da seca que castiga o sul. Não se falou o suficiente sobre a juventude, que é mais de metade do país e menos de metade das oportunidades. Não se disse muito sobre as mulheres, que sustentam o lar, o comércio informal e a esperança, quase sempre sem reconhecimento.

E o que dizer da educação, da qualidade do ensino, do futuro digital do país? O que se pensa fazer para que as novas gerações não precisem emigrar para sonhar? Cada omissão é também uma mensagem. E, às vezes, o que não se diz pesa mais do que o que se proclama.

IX. Conclusão: entre o discurso e a resposta O discurso do Presidente João Lourenço foi sereno, seguro e, em certos momentos, inspirador. Falou como quem acredita na sua missão. E talvez acredite mesmo. Mas, num país cansado de promessas, a fé já não basta.

As perguntas continuam no ar: Estamos, de facto, a transformarnos ou apenas a resistir? Estamos a crescer ou apenas a sobreviver? Estamos a combater a corrupção ou apenas a substituí-la por novas formas de poder? Estamos a descentralizar o Estado ou a recentralizá-lo em novos rostos? O Estado da Nação não se mede em palavras, mas em resultados.

E talvez essa seja a lição maior de 2025: o país quer menos discursos e mais respostas. Porque Angola tem tudo para dar certo — se quiser, se ousar e, sobretudo, se escutar o que o próprio povo lhe diz em silêncio.

Por: ALEXANDRE CHIVALE

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