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É de hoje…Undengue, a marca de Jacinto de Lemos

Dani Costa por Dani Costa
10 de Setembro, 2025
Em Cronica de Dani Costa, Opinião

Li há dias – desconheço quem tenha sido o autor – um desabafo sobre o silêncio em torno da morte de Jacinto de Lemos, um dos mais criativos escritores angolanos, que o enquadro à dimensão, por exemplo, de Wanhenga Xitu, pseudónimo literário do também malogrado Agostinho Mendes de Carvalho.

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Quem lê o Ministro, Mestre Tamoda, Mestre Tamoda e Outros Contos, Bola com Feitiço, por exemplo, lembrar-se-á, em alguns instantes, do Undengue, O Pano Preto da Velha Mabunda e Chico Nhô, e encontrará alguns traços entre um e outro. Longe da escrita escorreita, sempre notei entre os dois autores algumas semelhanças, apesar da enorme diferença de idade.

Porém, com vivências e narrativas com expressões próprias, umas recorrendo a algum calão e outras ao ‘português kimbundizado’.

Exceptuando poucos escritos – e alguma informação divulgada – quase ou pouco nada se disse em relação a Jacinto de Lemos e seus escritos, uma marca para os alunos depois da década de 80 e daqueles que apreciam ou foram dados a ler até por exigência autores angolanos.

Não o conhecia até que os seus escritos me foram introduzidos por um amigo já falecido. Embora tenha lido outros, poucos serão os que tiveram a oportunidade de ler Undengue e não se apaixonaram. Nem mesmo depois de já estar no ensino médio, nas aulas de Artes e Literatura Angolana, ministradas pela professora Gabriela Antunes, ter tido o privilégio de estudar a fundo a vida e obra do escritor António Cardoso.

As tropelias do menino Janeiro, o terror do Kota Carvalho, a quem chamava por tirando o V, trazem à memória as estórias e histórias dos musseques da capital, quase todas recheadas de simbolismo e algum misticismo.

É assim em Undengue, um livro que, depois de lido uma primeira vez, se recebe igualmente a obrigação de voltar a folhear sempre que possível por conta da forma mágica em que Jacinto de Lemos se entregou na referida obra.

Não foi em vão que, mesmo depois do controverso debate sobre os clássicos da literatura angolana, que desencadeou um debate feroz sobre os arautos da nossa escrita, o livro acabou por constar também da escolha dos promotores da iniciativa: o GRECIMA. E poucas foram as discordâncias. Passar por este livro fez com que aguçasse a curiosidade de poder encontrar outros pela frente.

Um exercício que levava a buscar novos autores, novas experiências, muitas das quais nos chegavam às mãos pelo saudoso Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD). Seria de todo bom e assinalável se se regressasse a estes tempos e se desse a possibilidade de muitos dos nossos rapazes o poderem conhecer, assim como os seus escritos. Seguramente que muitos poderiam amá-lo.

E fariam dos escritos de Jacinto de Lemos uma porta de entrada ao apaixonante mundo da literatura e da leitura que, com o advento das redes sociais e de algumas artes mais controversas, vai perdendo entre nós muitos adeptos.

Noutros horizontes, a partida de um escritor da sua dimensão acabaria por merecer, indubitavelmente, uma acesa discussão em torno da sua obra, como já se fez num passado distante em relação a outros. Pena é que hoje até a própria União dos Escritores Angolanos esteja moribunda…

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