A reflexão em torno da liderança africana contemporânea impõe, com inegável acuidade, uma revisitação crítica dos seus fundamentos ontológicos, axiológicos e epistemológicos, particularmente no que concerne à sua dimensão espiritual.
Foi, aliás, neste quadro de inquietação intelectual que se adensou a curiosidade pelo tema, não apenas a partir do contacto com abordagens difundidas pelo site Reinos Africanos, entendido aqui como relevante plataforma de divulgação histórico-cultural, mas também em virtude do mais recente desafio profissional que me foi dirigido, consistente em ministrar o curso de Chefia e Liderança, circunstância que reavivou, com renovado rigor, a necessidade de repensar os alicerces do acto de liderar no contexto africano.
Com efeito, a tradição africana de liderança distingue-se, de forma inequívoca, dos paradigmas ocidentais dominantes, frequentemente ancorados em ma trizes racionalistas, tecnocráticas e individualistas. Em sentido diverso, a liderança africana estrutura-se a partir de uma lógica de interdependência entre o sujeito, a comunidade e o todo, nu ma linha de pensamento que encontra eco na filosofia de Mogobe Ramose, ao sustentar que a existência humana se realiza na relação com o outro.
Longe de se esgotar no plano filosófico, tal concepção projecta-se directamente na configuração de uma autoridade que não se legitima apenas pela investidura formal, mas pela sua consonância com valores éticos e espirituais partilhados. É neste contexto que a espiritualidade se revela como elemento estruturante da ordem social e política.
Com efeito, não se trata de uma dimensão periférica, mas de um verdadeiro princípio orientador da conduta do líder, cuja actuação deve reflectir equilíbrio, prudência e compromisso com o bem comum.
Tal entendimento encontra respaldo nas abordagens de autores como Lo vemore Mbigi e Reuel Khoza, que têm sublinhado a centralidade de uma liderança assente no humanismo africano, onde o exercício do poder se encontra indissociavelmente ligado à responsabilidade moral e à consciência colectiva. Concomitantemente, a lide rança, assim concebida, afasta-se de qualquer neutralidade axiológica, afirmando-se como prática intrinsecamente ética.
Por: LADY ROSA
Advogada e docente universitária








