Três dias depois de ter chegado a Angola, numa visita apostólica, que o leva hoje à província de Lunda-Sul, são os pronunciamentos feitos durante o encontro na Sala Protocolar que vão ecoando aos quatro cantos. Religiosos, académicos, integrantes da sociedade civil, alguns activistas e sobretudo, políticos são os que vão amplificando os dizeres de Leão XIV.
Como era de se esperar, até porque o slogan da vinda deste terceiro Papa a Angola apregoava, a questão da reconciliação, e outras abordadas eram por demais previsíveis.
Aliás, quem conhece o seu percurso até ao papado, no qual substituiu o Papa Francisco, não deixaria de se manifestar sobre a exploração das elites, nem tão pouco em relação à má distribuição da renda. Disse o Santo Padre aos angolanos que ‘Vós sabeis bem que demasiadas vezes se olhou e se olha às vossas terras para dar ou, mais frequentemente, para tirar algo.
É necessário quebrar esta cadeia de interesses que reduz a realidade e a própria vida a uma mera mercadoria’. Trata-se de algo indiscutível. Aliás, já pressagiara, num passado muito distante, o primeiro Presidente da República de Angola, António Agostinho Neto, que África era um corpo inerte em que cada abutre vinha debicar o seu pedaço.
Todavia, as sociedades actuais não dispensam a cooperação entre os Estados, entre estes e outras organizações internacionais ou até mesmo entre os próprios Estados com grandes multinacionais.
O ideal é que se estabeleça uma relação win-win, ou seja, aquelas em que cada parte venha a ter benefícios, sendo estas posteriormente estendidas àqueles que deveriam ser os principais beneficiários: os cidadãos. Adiante, numa plateia praticamente em silêncio, Leão XIV salientou que ‘Angola pode crescer muito, se, em primeiro lugar, vocês que tendes a autoridade no país acreditarem na multiformidade da sua riqueza’.
Sobre a juventude, foi peremptório: ‘Não temeis as divergências, nem extingueis as visões dos jovens e os sonhos dos idosos. Sabei, sim, gerir conflitos, transformando-os em caminhos de renovação. Colocai o bem comum acima das partes, não confundindo nunca a vossa parte com o todo’.
É líquido que o futuro de Angola está nas mãos da sua juventude. E que não se pode retirar destes o papel que lhes está destinado por natureza. De igual modo, é expectável que o faça de forma crítica, sensata e responsável, às vezes distante das jogadas políticas de quem os que como o pára- choque para embates que muitos acabam por fugir. Na realidade, Papa Leão trouxe a Angola muito daquilo que internamente também se discute.
O maior problema parece ser como encaramos alguns dos desafios que se nos apresentam, em que quase sempre muitos não se querem desprender das suas teses políticas. À primeira vista, há quem queira imputar a quem governa todo o ónus do que se passa no país.
É claro que se tem mais responsabilidades, porque, afinal, não é fácil criar condições, mesmo em situações adversas, para um país hoje com mais de 30 milhões de pessoas, algumas das quais ainda em zonas praticamente inacessíveis. E cada um de nós tem a sua quota- parte de responsabilidade, enquanto cidadãos, políticos, opositores, gestores e até mesmo líderes religiosos.









