É inevitável que Angola um dia poderá vivenciar uma alternância política. Porém, é indiscutível que este desiderato deverá ser alcançado somente recorrendo às urnas, enquanto Angola for um estado de direito e democrático, e não em actos de violência ou outros contrários à democracia.
Enquanto este período não chega, há um país que vai sendo construído, com altos e baixos, podendo cada um dos seus cidadãos sentir-se feliz ou triste consoante os acontecimentos particulares ou colectivos.
É inegável, por exemplo, que a actual situação socioeconómica é devastadora para muitas famílias, algumas das quais os seus provedores encontram-se desempregados e não têm acesso à renda para suprir as necessidades alimentares, de vestuário e de saúde.
Mas, ao longo dos anos, quer se concorde ou não, há sempre aspectos de que nos devemos orgulhar, embora de forma quase pueril existam aqueles que alardeiam aos quatro cantos de que se sentiam mais felizes na época colonial do que na Angola independente.
Qualquer angolano são, acredito, nunca menosprezaria a independência obtida nem a celebração dos seus 50 anos, independentemente das suas razões políticas, económicas, sociais e até religiosas.
Quando se faz o rescaldo destas cinco décadas, a assinalarem-se em Novembro próximo, seguramente que existirão mais pontos positivos que negativos, em termos de construção de infra-estruturas, fornecimento de água, energia, hospitais.
Por isso, é expectável que na hora do juízo final existam os que irão assinalar os pontos positivos e outros que dirão o contrário. Para determinadas situações, as diferenças, sobretudo políticas, devem ser colocadas de lado.
Porque, embora seja necessária e até se ter tornado numa das principais fontes de conflitos no país, a verdade é que há mais vida para além da política. E este facto deveria servir de mote para que os fazedores desta importantíssima arte se pudessem situar perante a sociedade, os seus eleitores e aqueles que gostariam que os votassem no futuro.
Infelizmente, enquanto aumenta o tempo de instituição do Estado de Direito e Democrático, há, do outro lado, segmentos que parecem não se aperfeiçoar com as diferenças, nem tão pouco com a necessidade de se olhar de forma imparcial para determinados fenómenos.
Vai sendo para muitos extremamente difícil dissociar Angola das clivagens políticas. Nem tão pouco os feitos em vários segmentos resistem a uma espécie de ódio incubado que nesta fase do campeonato já deveria merecer uma visão diferente se obtido sem as cores partidárias, mas somente por angolanos que se empenham para o efeito.
A velha lógica de que se não formos nós não podemos festejar, nem felicitar, ou se foram eles, então que os amaldiçoemos, indica que para muitos a política implica necessariamente não ser patriota.
E há entre nós, em Angola, sobretudo nos últimos tempos, sinais muito preocupantes e, às vezes, doentios que até já levam muitos a questionar que acções muitos tomarão no dia em que tiverem o tacho e acesso ao pote. É bem provável que se risque e até rasgue a história dos outros anos, porque se pensará, erradamente, que o país só vai começar quando estiverem no leme.