Tem sido comum, nos últimos tempos, principalmente em encontros com amigos, surgirem questões sobre os passos dados durante o processo de combate à corrupção, assim como o repatriamento de capitais. À medida que se aproxima o fim do mandato do Presidente João Lourenço, que está na liderança do país desde 2017, depois de cerca de 40 anos ininterruptos do Presidente José Eduardo dos Santos, é normal que cada um dos angolanos comece a questionar-se sobre o seu consulado e aquelas que foram as suas principais bandeiras.
Quem quer que fosse eleito Presidente da República depois de José Eduardo dos Santos tinha que, inevitavelmente, puxar dos galões para combater a corrupção que imperava no país. Aliás, momentos depois de Angola ter alcançado a paz, o malogrado estadista manifestara, publicamente, que a corrupção era o segundo mal depois do conflito armado que assolara os angolanos desde a sua independência até 2002, com a morte em combate de Jonas Savimbi nas matas do Lucusse.
Angola era referida pelos relatórios das mais importantes organizações internacionais como uma das nações mais corruptas do mundo, galgando progressivamente os rankings divulgados por estas, o que se repercutia negativamente na imagem do próprio país e, consequentemente, na atracção de investimento estrangeiro.
A nível interno, era por demais sabido que o acesso a determinados negócios — assim como o enriquecimento de muitos — não tinha sido por conta da expertise de muitos, embora se reconheça o mérito de muitos empresários que, durante largos anos, conseguiram sobreviver distante das “tetas” do poder. Um outro grupo, significativo, teve acesso ao pote graças ao tráfico de influência e àquilo que o próprio Presidente José Eduardo dos Santos chamou, em discurso na Assembleia Nacional, de ‘acumulação primitiva de capital’.
Na prática, depois daquele discurso, ficou patente que parte da burguesia reinante, ainda nos dias de hoje, tinha sido criada com um enorme esforço do Estado. Preferiu-se alguns em detrimento de outros, sabendo-se desde já que, nestes contextos, a aproximação de quem distribui a jogada acaba sendo um factor primordial, razão pela qual muitos dos potenciais beneficiários terão sido aqueles que rodeavam o então Titular do Poder Executivo.
Sabendo-se desde cedo, como se soe dizer na gíria popular, que ‘o dinheiro deixa rastos’, era inevitável que um dia se chegasse ao momento de, no mínimo, se questionar o retorno deste capital, das posições contratuais assumidas, assim como de outras no estrangeiro, igualmente de contas bancárias em nome de particulares, como se chegou a questionar no célebre processo ‘Angolagate’.
Longe da perseguição que tem sido usada como argumento, incluindo até por políticos que, durante largos anos, defendiam a necessidade imperiosa de um combate à corrupção, o processo de recuperação de activos era um imperativo até moral.
Afinal, não fazia qualquer sentido que alguém que tivesse abocanhado de parte significativa que é de todos viesse, em surdina, com campanhas até internacionais, se assumir como detentor de fortunas cuja origem vem da acumulação primitiva. Pena é que hoje os papéis parecem se ter invertido.
Muitos dos actores transformaram-se em vítimas e os problemas sociais que muitos atravessam hoje sirvem de lupas para enxergarem de outro modo uma acção que Angola precisava e o mundo, incluindo aquele em que muitos se refugiaram, esperava para que pudesse trazer investimentos e apoiar o país nas mais diversas esferas.
FILDA 2026





