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Diálogo cultural Angola e Brasil na música “É Luanda”, de André Mingas

Jornal Opais por Jornal Opais
27 de Janeiro, 2023
Em Opinião

A arte de combinar a sonoridade de maneira rítmica, harmoniosa e melódica exige que seu fazedor tenha conhecimentos socioculturais sobre o que pretende imprimir nos seus textos.

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A música, para além de entreter o seu ouvinte, também tem o valor de ensinar e instruir aquele que a ouve.

A presente abordagem analítica pretende trazer à luz o diálogo cultural entre Angola e Brasil na música de André Mingas com o título “É Luanda”  música pertencente ao álbum com o mesmo título, lançado em 2011 pela gravadora Fina Flor; este álbum musical comporta onze faixas musicais, nomeadamente: É Luanda, Tons de Azul, Minha Doce Mulher, O Que Eu Quero, Nudez, Marina, Bombons, Cio, Por Amor, Miles, Mary e Liceu e por último, o sucesso Paxi Ni N´Gongo.

O diálogo é uma modalidade comunicativa entre dois ou mais interlocutores.

Na música em análise, o autor colocou a cultura angolana e brasileira em conversa. Sobre cultura, Eagléton (2005, p.54), afirma que a cultura “pode ser aproximadamente resumida como o complexo de valores, costumes, crenças e práticas que constituem um modo de vida de um grupo específico”.

Em conformidade com a filosofia eagletiana, esta análise descreve temas sobre a divindade, a gastronomia, os lexemas referentes às actividades ilegais (contrabando) e cenas do dia-a-dia das sociedades angolana e brasileira.

O autor da música situa, geograficamente, as suas temáticas nas toponímias Bahia e Luanda, como se pode verificar no seguinte refrão: “Eu sou da Bahia é Luanda/ Gilberto Gil é Luanda/ O ileia he, é Luanda/ até Oludum é Luanda.”

(Mingas, 2011).

Relativamente à divindade, nesta música, podemos identificar o vocábulo Kimbanda, fazendo referência a uma divindade angolana, isto é, nas religiões tradicionais ( usamos a expressão religiões tradicionais para diferenciar estas das outras cujas origens não são angolanas) deste país, especificamente, nas culturas de onde provém esta expressão.

Esta divindade mantém um diálogo paralelístico com a divindade Lansã – um ser divino da religião Umbanda (religião brasileira formada através de elementos de outras religiões como o catolicismo ou espiritismo juntando ainda elementos da cultura africana e indígena ) no Brasil.

Kimbanda e Lansã são entes divinos culturais de Angola e Brasil com a capacidade de defender e libertar os seus fiéis de todos os ataques físicos, espirituais e mentais.

Este diálogo é visível na seguinte passagem musical: “Kimbanda que é pai de santo/ nosso santo é lá lansã” (…) (Mingas, 2011). Ainda sobre o diálogo entre divindades culturais, também identificamos a presença de duas divindades do rio, isto é, Kianda, para os rios de Angola, e Lemanja, para os rios de Brasil.

A manifestação destas duas divindades estão nos seguintes versos da música: (…) “Trouxe palavras novas, kianda virou lemanja (…). (ibidem). Quanto à gastronomia, André Mingas, sendo conhecedor das culturas angolanas e brasileira, faz-nos saber que dois pratos típicos de Angola têm outras designições no Brasil.

Tal como se pode ver na seguinte passagem da música: (…) “Calulú virou mukeka, funge virou vatapá”. (ibidem). Para dizer que calulu, prato de Angola, equivale ao mukeka no Brasil e funge à vatapá.

No que tange às práticas ilegais, em Angola, o lexema candonga transmite-nos esta ideia, todavia, no Brasil, a expressão usada para designar práticas de vendas ilícitas é muamba, ou seja, ambos os vocábulos transmitem-nos a ideia de contrabando, embora possam ter também outras significações em função do carácter dinâmico da língua humana (idioma).

Este diágolo lexical é notório no verso: (…) “candonga é muamba lá”.(ibidem). Outro aspecto não menos importante tem a ver com as cenas do diaa-dia de ambas as cidades, cenas descritas nos seguintes versos: (…) “Há uma rua que é das pretas, que o nosso muyu ngo cá/ Makas só falas bocas, bocas também há por lá/ O mujimbo é lá fofoca, palavra que cá já não há”.

(ibidem). Na citação acima, o autor mostranos que a palavra makas faz referência às cenas de confusão, problemas em Angola, contudo, no Brasil, usa-se o lexema bocas para se descrever a mesma realidade.

O vocábulo mujimbo equivale à expressão fofoca em Brasil.

Portanto, a música “É Luanda”, de André Mingas, é um rico acervo cultural, porque descreve as realidades culturais de Angola e Brasil num diálogo paralelístico, abordando temas sobre a espiritualidade afro-brasileira, a gastronomia, a toponímia, a questão linguística e cenas do dia-a-dia; reiterando, de ambos os países.

Por:  ARMANDO MARIA

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