Enquanto esperava por uma amiga no Nosso Super do Golf II, um puto veio ter comigo. Traumatizado com os constantes relatos de assaltos em Luanda, tranquei à pressa a porta do carro, tremendo lá dentro, convencido de que se tratava de mais um desses jovens armados em “gangster”. Mas o menor, trajado com uma bermuda, chine los e uma camisola já gasta, batia à porta com insistência. Ganhei a coragem do Cazenga e pensei: sou filho da dificuldade, dos becos escuros. Que seja o que
Deus quiser. Decidi enfrentá-lo. Assim que baixei o vidro, recebi uma saudação educada e calorosa. Não era nenhum delinquente. Era o Miguel, que, à semelhança de muitos outros, “fugiu” de Benguela para tentar a vida em Luanda.
Depois da breve apresentação, pediu-me o telefone para ligar à mãe, também vítima da tragédia das cheias no Lobito. Segundo o jovem, de 18 anos, desde que saiu de Benguela, em 2023, não mantinha contacto frequente com ela, porque o seu humilde trabalho de “roboteiro” lhe ocupava muito tempo.
Ainda assim, guardava com cuidado o número da mãe num pequeno pedaço de papel. Ligava sempre que podia — ela sofria de diabetes e hipertensão. Enquanto eu, envergonhado por ter feito um mau juízo, pensava na insegurança que se vive em Luanda, Miguel falava com a mãe. Durante mais de oito minutos, ela contou que escapara ilesa porque, no dia da chuva, estava noutra zona de Benguela.









