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OPAÍS

China, África e a geopolítica das tarifas: Oportunidades e riscos para Angola

João Felicianopor João Feliciano
5 de Junho, 2025
Em Opinião

Nas últimas duas décadas, a China consolidou-se como um dos principais actores geopolíticos em África, exercendo uma política externa pragmática, centrada no investimento, na diplomacia económica e na retórica da solidariedade Sul-Sul.

E esta presença tornou-se ainda mais relevante num contexto global de tensões comerciais, particularmente entre Pequim e Washington, cujas repercussões atingem com força os países africanos — especialmente aqueles, como Angola, cuja dependência do comércio estrangeiro e de matérias-primas os torna mais vulneráveis a choques externos.

Com a imposição das tarifas norte-americanas sobre produtos chineses — intensificada nos últimos anos sob justificativas de protecção industrial e segurança nacional — o eixo sino-americano entrou numa espiral de desconfiança mútua. Mas enquanto as duas potências digladiam-se, África emerge como um tabuleiro estratégico onde se disputam não apenas os recursos, mas também as alianças políticas, acesso aos mercados e legitimidade internacional.

Para Angola, país cuja economia continua fortemente dependente da exportação do petróleo e da importação de bens de consumo e maquinaria, as tarifas americanas têm efeitos indirectos, mas significativos.

A desaceleração da economia chinesa, provocada por estes entraves comerciais, impacta a procura global por petróleo e matérias-primas — o que significa menos receitas para os cofres do Estado angolano.

Por outro lado, a menor competitividade dos produtos chineses no mercado americano leva a um desvio de exportações para mercados alternativos, incluindo o africano. Isto cria, ao mesmo tempo, novas oportunidades e desafios para a indústria local, ainda frágil e exposta à concorrência de bens manufaturados mais baratos. Neste cenário, a China parece determinada a aprofundar os seus vínculos com o continente africano.

Através da Iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” (BRI, na sigla em inglês), Pequim oferece financiamento para infra-estruturas, concessões de crédito e programas de formação, em troca de fidelidade diplomática e acesso preferencial a matérias primas.

Em Angola, o modelo de financiamento por petróleo (“recursos por infra-estrutura”) marcou uma fase intensa da cooperação bilateral, que agora anda a busca de renovação sob bases mais sustentáveis e diversificadas.

Contudo, a crescente dependência africana em relação à China levanta, questões que se afiguram legítimas sobre soberania económica, sustentabilidade da dívida e assimetrias comerciais. Embora a narrativa chinesa insista na parceria “ganha-ganha”, muitos países africanos têm dificuldades em impor cláusulas mais favoráveis nos acordos, ou em maximizar o valor agregado local nas cadeias de produção financiadas por Pequim.

No caso angolano, a China pode alargar a sua influência se alinhar os seus investimentos com as prioridades da diversificação económica, da industrialização e da formação de quadros desenhadas pelo Executivo angolano.

Mais do que grandes obras de infra-estrutura, é claro, Angola precisa agora de apoio para desenvolver uma base produtiva interna — desde a agricultura mecanizada à transformação industrial — que reduza a dependência das importações e aumente o valor dos seus recursos naturais.

Mas Pequim pode também reforçar a sua posição investindo na diplomacia cultural, científica e educacional. Os programas de bolsas de estudo, parcerias a nível do ensino universitário e intercâmbios tecnológicos podem criar uma nova geração de africanos formados sob a lógica sino-africana de cooperação mútua, o que, a médio e longo prazo, poderá gerar capital simbólico e alicerçar novas formas de soft power.

A crise provocada pelas tarifas americanas não deve ser vista apenas como um entrave, mas como uma oportunidade para África — e Angola, em particular — repensar os seus parceiros e estratégias de desenvolvimento.

A China, com os seus recursos, experiência e vontade política, poderá ser aliada decisiva neste processo. Mas cabe aos países africanos garantirem que esta aliança seja equitativa, transparente e voltada para a autonomia económica a longo prazo.

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