Na madrugada de 29 de Abril, em Gaborone, entre o silêncio da cidade e as páginas de um livro que insistia em não me deixar dormir, dei por mim a pensar em África.
Não foi um pensamento nos tálgico. Foi um pensamento estratégico.
Há momentos em que um País percebe — ou devia perceber — que o mundo à sua volta mudou. E este é um desses momentos. A África Austral está a reorganizar-se. Silenciosamente, mas de forma estrutural.
O que antes eram apenas com petições desportivas ou encontros protocolares está a transformar-se numa nova arquitectura de influência: eventos como plataformas económicas, juventude como activo estratégico e comunicação como instrumento de poder. Enquanto alguns países ainda organizam jogos, outros já estão a organizar poder.
E África, infelizmente, ainda não decidiu de que lado quer estar. Durante anos, tratámos o desporto como celebração. Pontual, emotiva, episódica.
Mas o desporto, hoje, é outra coisa. É indústria. É diplomacia. É posicionamento internacional.
Na prática, é poder. Basta olhar para o que está a acontecer na região: países a estruturar calendários estratégicos, a atrair investimento através de eventos, a profissionalizar a relação com patrocinadores, a transformar cada competição numa plataforma de visibilidade e retorno eco nómico.
Não é acaso. É estratégia. E estratégia exige uma coisa que raramente assumimos com frontalidade: disciplina. Em África, continuamos a reagir mais do que a planear. Investimos sem modelo. Comunicamos sem coordenação.
Participamos sem capitalizar. É como organizar uma grande festa no bairro, montar colunas, trazer comida, encher o espaço — e no final não sa ber quem pagou, quanto se ganhou, nem o que ficou para o dia seguinte. A festa passa.
O impacto não fica. E num continente onde mais de metade da população é jovem, este não é um detalhe técnico — é uma questão estratégica. Porque quem não mobiliza a juventude, perde relevância. E quem perde relevância, per de influência. A nova corrida africana não é apenas por recursos naturais ou infraestruturas.
É por atenção, por mobilização, por capacidade de organizar pessoas em torno de uma visão. É aqui que o desporto entra como um dos instrumentos mais poderosos do nosso tempo. Não apenas para formar atletas, mas para formar cidadãos, gerar economia, criar identidade e projectar países. África tem tudo para liderar neste espaço. Tem talento. Tem escala. Tem história. Tem juventude. O que falta não é capacidade.
É decisão. Decisão de tratar o desporto como sector económico. Decisão de posicionar África Austral como um hub estratégico no Continente. Decisão de estruturar um verdadeiro sistema de mobilização juvenil. E, acima de tudo, decisão de comunicar com intencionalidade. Porque hoje, mais do que fazer, é preciso mostrar.
E mostrar bem. Sem isso, até as melhores iniciativas morrem no silêncio. Talvez a melhor analogia seja simples e profundamente angolana. Temos potencial para ser como o Kuduro quando explodiu — autêntico, energético, impossível de ignorar — mas continuamos, muitas vezes, a com portar-nos como um ensaio que nunca chega ao palco.
Ou como um campo de futebol cheio de talento, mas sem treinador, sem táctica e sem plano de jogo. E no futebol, como na política e na economia, talento sem estratégia raramente vence. A Europa já entrou em campo. O jogo começou.
A questão é saber se África vai jogar para ganhar — ou apenas para participar. Porque há uma diferença clara entre estar presente e serre levante. E relevância, hoje, não se herda. Constrói-se. Com visão.
Com método. Com coragem para decidir. África não precisa de mais eventos. Precisa de uma estratégia. E estratégias não se anunciam. Executam-se.
POR: EDGAR LEANDRO









