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A queda da Tia Fefa na boda dos miúdos do bairro – Vidas de Ninguém (VII)

Domingos Bento por Domingos Bento
16 de Janeiro, 2026
Em Opinião

Já passavam das duas horas da manhã quando a neta da Tia Fefa implorava desesperadamente por socorro, porque a avó tinha ido festejar, não aguentara a batida e acabara estendida no chão, a contorcer-se de dor. Desnorteada, a miúda contava que a avó sofrera uma queda quando tentava dançar uma tal música de kuduro, intitulada “Parte a Coluna”, que andava por aí a fazer barulho pelos bairros. O ritmo era adequado apenas para os mais jovens. Mas a avó, segundo a neta, decidiu experimentar e teve o azar de acabar estendida, o que gerou pânico.

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A notícia abalou a comunidade que festejava sem parar o último dia do ano. Afinal, a noite era de kandandu para saudar o novo ano que acabara de entrar. As festas de quintal havia-as por todos os lados do bairro, onde não faltavam música alta, danças e o funge, que tinha acompanhantes de dar inveja, desde o peixe seco, a lambula grelhada, a quizaca, o feijão e até a meia-ndungo, para espantar a bebedeira de quem passasse da dose.

O maruvo e a capuca eram degustados em jarros e em copos reco-reco, com a cautela que se recomendava. Mas algumas pessoas preferiam passar vergonha por não terem sabido dosear o volume de álcool. É o caso do Man-Joca, que bebeu maruvo em quantidades industriais e acabou por fazer xixi nas calças.

Quando sentiu que estava completamente molhado, tirou as calças e andou assim mesmo, livre e solto pelo bairro, conforme viera ao mundo, pelo ventre da velha Nhonhota, antiga vendedora de galetes na Praça do Lembe-Lelé. Depois de beber, Man-Joca andou nu pelo bairro a chorar pela progenitora, que morrera nos confrontos de 1992, quando tentava sair do Musseque Grande para a baixa da cidade. Coitadinha da senhora, era pessoa de respeito e nem encostava onde houvesse álcool. Do sumo de limão e gengibre a velha não passava.

Deve ser por isso que chegou aos 85 anos de idade, mas com corpo de moça de 20 anos. Não tinha vício nenhum. Se não fosse aquele maldito dia do confronto, a velha chegaria a dar chapa de 100 anos de vida. Aquele beber sujo e desnorteado do Man-Joca herdara-o do pai, o kota Sabalo, antigo pastor da Pentecostal, que fora expulso da igreja porque desviava o dinheiro da oferta para comprar vinho. Por isso é que, quando morreu, nenhum irmão da igreja pôs os pés no óbito.

Assim como o pai não fora perdoado pelos irmãos da igreja, Man-Joca também não foi desculpado nem poupado pelos miúdos, que o apedrejavam depois de ele ter andado nu pelo bairro. Foi espancado e acusado de bruxo. Toda a confusão só acabou quando a neta da Tia Fefa chegou a transpirar, de voz trémula e completamente desesperada, a dizer que a velha estava caída no chão, completamente desligada.

O respeito dos 65 anos que guardara foi deitado abaixo por querer imitar os moços que, naquele dia, organizaram o chamado réveillon no quintal do Boquinha, filho da falecida tia Lolita, que morrera de hipertensão por causa do barulho e das confusões que o filho arranjava todos os dias.

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