A equipa de reportagem do jornal OPAÍS dirigiu-se à Rádio Marginal, na Vila Alice, para, em sede das comemorações dos 450 anos da fundação da cidade de Luanda, falar com Paulo Miranda Júnior, um dos jornalistas que mais conhece o centro e a periferia da capital angolana, tudo por conta da profissão que exerce há mais de duas décadas. Numa entrevista descontraída, o então profissional da Rádio Luanda, para quem o conhece naquele seu gesto divertido, reiterou que a história imaterial e material, incluindo os edifícios antigos da cidade, devem ser preservados para não se apagar, a fim de as próximas gerações entenderem a vida e a alma daqueles que por ela passaram. Paulo Miranda Miranda Júnior, actualmente director da Rádio Marginal, ao longo da sua carreira, fez muitos amigos em quase todos os bairros de Luanda, porém a sua memória fotográfica sempre contribuiu para o sucesso do seu trabalho
Acidade de Luanda completa 450 anos no dia 25 de Janeiro. Que alma tem hoje a urbe fundada pelo português Paulo Dias de Novais em 1576?
É difícil explicar. Não sou de Luanda. Estou em Luanda desde a segunda metade da década de 80 e, daí para a frente, comecei a andar um bocadinho pela cidade. O que me levou a conhecer a cidade foi principalmente a Rádio Luanda. Quem fala da cidade não conhece a cidade, não conhecer os seus meandros, conhecer as pessoas, conhecer os bairros. Cada bairro com uma história. Os bairros antigos, desde o floral da cidade até à periferia hoje. Hoje conheço muito menos Luanda, porque a cidade cresce todos os dias. Ando menos também. Mas já tive bons momentos nesta cidade, com pessoas em todos os bairros, tanto no centro da cidade como na periferia.
Que imagem tem hoje a cidade, visto que onde havia uma residência “nasceu” um edifício?
Os arquitectos têm discutido muito sobre isto. Principalmente no floral da cidade. Ali no centro onde nasceu a cidade. Da fortaleza de São Miguel, hoje Museu de Historia Militar, aquela parte mais antiga que vem até aí mais ou menos para o Cemitério do Alto das Cruzes, Cidade Alta, até mais ou menos ali à Maianga, onde era o antigo Zamba II, ali onde estavam as cacimbas, um bocadinho até à Mabunda, havia a Ilha das Cabras, Ilha de Luanda e a Boavista, em toda essa zona foi construída a cidade colonial. A cidade mudou muito!
Mudou muito como?
Olhe para a Avenida 4 de Fevereiro, na Marginal, aquele casario todo antigo está a ser substituído por edifícios em altura. Dizem os desenhadores, os arquitectos da cidade de Luanda, que isso descaracteriza um bocadinho a cidade de Luanda. E é olhar para aqueles edifícios todos que estão aí erguidos. Todos eles, ou quase todos eles, têm problemas na fundação. Quase todos têm bombas submersas que mandam água do lençol freático para a Baía de Luanda. Estes edifícios aqui estão todos em pés de barro.
Isto é ou não preocupante?
Quem conhece a baixa da cidade capital, aquele casario antigo mudou e é preocupante. Já disse aqui há alguns anos e até hoje mantenho a minha palavra. Há dois edifícios que eu não entrarei por livre e espontânea vontade na cidade. Só se for forçado a entrar.
Quais são esses edifícios?
Um deles é o Palácio Dona Ana Joaquina. Por nada, eu entraria naquele edifício. Não é que eu seja saudosista. O edifício tinha um desenho muito bonito. Quando foi feito o restauro daquele edifício, não só mudaram a alma do edifício, partiram-se paredes! Enfim, mudaram muito a estrutura interna daquele edifício. Conheci o edifício antigo já a ruir. Andava ali por aqueles corredores e estava completamente a ruir. Era preciso fazer um restauro minucioso. Não. Trocaram a malha antiga, puseram material novo e fizeram aquele restauro. Disse a primeira vez quando foi inaugurado como Tribunal. Neste edifício, só entraria outra vez se fosse convocado para uma sessão de julgamento. Risos… Porque de livre espontânea vontade eu não entraria naquele edifício e estou a cumprir a minha palavra até hoje. Espero cumprir até ao fim dos meus dias. O outro edifício em que eu não entraria e não entro até hoje é o shopping que está ali ao pé da Fortaleza de São Miguel. Não entro naquilo para nada na minha vida.
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