As muambeiras, nome vulgarmente conhecido para comerciantes que buscam negócios no exterior do país, sentem-se invadidas pelos estrangeiros que encontraram em Angola um campo fértil para fazer negócios. Por isso, queixam-se da invasão e usurpação de negócios que fazem, detidos maioritariamente por chineses e malianos. Estas comerciantes reclamam ainda de falta de abertura na China e denunciam que as contas bancárias foram bloqueadas naquele país asiático sem aviso prévio
As muambeiras, termo usado para descrever as vendedoras e comerciantes do sector informal que fazem viagens para o exterior do país, com objectivo de comprar negócios e revender no mercado nacional, persistem nas praças, apesar das inúmeras dificuldades.
Começaram desde o princípio dos anos 1980, altura em que surgiu o então mercado do Roque Santeiro, no município do Sambizanga, em Luanda, que foi considerado maior centro de comércio popular de Angola a céu aberto, após a inauguração oficial em 1991. Brasil, Índia, China, Estados Uni dos da América, Emirados Árabes Unidos (Dubai), Turquia e África do Sul são os principais destinos que as mulheres muambeiras exploram desde o início.
Entretanto, conta-se que os negócios começaram a ganhar mais força a partir dos anos 2000 até 2015, período em que o câmbio de 100 dólares oscilava até 10 mil kwanzas.
Apesar de existirem também homens no sector, são na maioria mulheres, que, com ‘visão de águia’, rumam para outros mares à procura de negócios para saciar o apetite do mercado nacional, com vendas de roupas, calçados, móveis, utensílios, cabelos postiços brasileiros e indianos e outros negócios, que as senhoras vendem nos mercados informais ou lojas.
Lá se vai o tempo em que as comerciantes faziam mais de 10 viagens por ano, compravam negócios, vendiam por uma ou duas semanas e regressavam outra vez. O ritmo competitivo de trazer o que chamam de “novidades”, “ma téria” ou até mesmo “chapada na banda” leva as mulheres a competirem umas com as outras.
O preço dos bilhetes para os destinos já mencionados é um tema que o tempo e a inflação terão consumido. Até 2010, os preços dos bilhetes para as viagens eram muito baixos em comparação com o período actual.
A TAAG, por exemplo, na rota directa Luanda (LAD) São Paulo (GRU), tinha tarifas que variavam entre 150.000 kwanzas e 180.000 kwanzas para vôos de ida e volta.
Quanto às companhias internacionais, outras opções com escalas, como a South African Airways ou a TAP Air Portugal, variavam na faixa de 130.000 kwanzas a 210.000 kwanzas. Um tempo em que até os bancos, por meio dos bilhetes de passagem, forneciam divisas para as muambeiras, mas tudo ficou apenas na história.
Actualmente, o sector das muam beiras, que mesmo no anonima to faz movimentar a economia in formal no país, está em declínio e a atravessar momentos difíceis com a falta de divisas, subida do dólar, invasão do mercado chinês e maliano em Angola, surgimento das tecnologias, contas bloqueadas na China, enfim, pouco a pouco o sector começa a registar ameaça de ficar para trás.
Resistência
Entretanto, mesmo com os obstáculos, algumas resistem a ferro e fogo. A determinação, o foco e a coragem dessas mulheres levaram a equipa deste jornal a conhecer as comerciantes, que, com os negócios que fazem, sustentam famílias, compram vivendas, casas, carros e pagam formação dos filhos em Angola e em outros países em que se encontram.
Começámos pelo novo mercado da Praça das Mulheres, localizado actualmente no Cazenga, por volta das 7 horas da manhã, em um clima fresco e úmido. A movimentação no local já era visível; cerca de 90 por cento da praça já estava ocupada com as mulheres negociantes.
As que vendiam “despachavam” os negócios, com fatos vindos da Tur quia, Brasil e China, vendiam ainda calçados, pastas, brincos e outros acessórios femininos e masculinos a um preço mais acessível.
Havia também as revendedoras; essas compravam para vender peça a peça (retalho). Foi daí que conhecemos Antónia Bernardo, por sinal, uma das mais antigas no novo mercado.
A comerciante, que começa o percurso desde o tempo do Roque Santeiro, é muambeira há 30 anos, conta que já passou por vários mercados, nomeadamente, o mercado do Panguila, Kikolo e a antiga Praça da Mulher. Antónia Bernardo avança que já conseguiu, com o que faz ao longo do mundo da ‘muamba’, várias conquistas, entre as quais casa, carro e outros bens.









