…Não que a quinta era um feito, mas era um dos lugares mais eufóricos que já havíamos frequentado. Uma vez Ngola falou para nós num tom baixo, como se os animais escutavam as nossas conversas e tinham visão de águia. Seus carros tinham vidros fumados, e quando vinham na quinta andavam todos perfilados como se o protocolo obedecia uma hierarquia.
Aqueles bois malandros, donos de tudo e sentavam sempre numa assembleia e dialogavam como se os lugares que sentávamos não eram nada, mas, no fundo, tudo era para nos vir sofrer com fome, e subir os troncos que, su- postamente, a sua e que, na verdade, a quinta era de todos nós, como dizia o avó Tujali, em Cacuso, na província de Malanje.
O espaço, como sempre, era de um caudal que escorregava nos nossos rostos as lágrimas sem- pre que as nossas patas marca- vam passso a passo e permane- cessem naquele lugar, e chegar em casa sabendo que deixamos rastos na quinta, daria em choros e um silêncio absoluto… Foi daqui que conhecemos Augusto Kandala, que muitas vezes aparecia na quinta com sua veste camuflada de coitado, seu pai era Mayor da Força Aérea, falava umbundu e kimbundu como se crescesse aqui na banda.
Mas sua presença e aparição não combinava com sua forma de vestir, às vezes, ria-se facilmente quando tentávamos correr sempre que aqueles bois chegassem. Ele sabia que era protegido e que se cometesse qualquer infração, sairia ileso. Bem que o kota Kandulo estava bem ali a nos observar de perto, e quando Castanha gritava: Vamos fugir, os animais ficavam mais furiosos, como se os espantos tirariam a carne da boa pitada no prato.
Fugir sempre foi a solução, mas nunca um recuo porque dali a vida se fazia sentir quando a fome nos levava para bem longe que a alma não se encontrava em nenhum desses lu- gares. Matala era o centro das atenções, o centro das revoltas, o lugar mais precioso, embora as árvores fossem coniventes dos bois.
E quando dizíamos o centro, estaríamos a falar daquele lugar que abrigava todas as crianças daquela aldeia lá na Huíla. Tudo porque havia chuva de manga pelos arredores, os tumultos fascinantes que, deliberadamente, eram um surto de exortação. Um dia desses, todos sentados à beira do recanto a ouvir a suavidade do canto de Castanha, Augusto Kandala disse-nos que devíamos parar de comer os frutos e só apreciar o quão lindo o lugar era, no sentido de não se ter problemas no futuro, tudo isso porque sempre houve tentativa de encarar os troncos das árvores, e parecia que eles retribuíam o mesmo e essa sensação passava de inóspi- tas vezes.
Foi assim que envidamos encarar as árvores, tal como kota Kandu- lo sempre quis, e pelo nosso comportamento fascinante passou- nos vários conselhos sobre a vida dos bois, de como se tornaram maus diante de todos que tenta- ram usurpar ou fazer da quinta um lugar qualquer. Após ouvir os conselhos, deduzimos que aquele lugar não era qualquer, era de tradição e ficar ali carecia não só de atenção, mas de um indulto que ficar a vaguear por longos tempos, se levasse em conta que; toda casa tem dono, mas nem todo dono manda em sua casa, como notamos desde as primeiras corridas preliminares dos bois na quinta.
POR: N’DOM CALUMBOMBO





