Quando o árbitro apitar para o fim da final do Mundial FIFA 2026, o mundo conhecerá um novo campeão. As medalhas serão entregues, os estádios esvaziar-se-ão, as bandeiras regressarão a casa e os adeptos voltarão às suas rotinas. Mas haverá uma competição que não termina com o último apito, entre os países que aprenderam com este Mundial e aqueles que continuarão a cometer os mesmos erros.
É precisamente aí que Angola deve concentrar o seu olhar. Durante este perí odo, assistimos ao melhor que o futebol tem para oferecer. Vimos talento, or ganização, intensidade, disciplina e inovação. Mas, acima de tudo, vimos uma verdade que já não pode ser ignorada: no futebol moderno, o talento continua a abrir portas, mas é a organização que conquista títulos.
Durante muitos anos habituámos-nos a repetir que Angola é um país de grandes futebolistas, e não há exagero nessa afirmação. Das ruas de Luan da aos bairros de Benguela, do Huambo ao Lubango, a bola continua a ser o brinquedo preferido de milhares de crianças. O talento nasce com uma naturalidade admirável, faz parte da nossa cultura, da nossa alegria e da nossa forma de estar. Mas o Mundial mostrou-nos que o talento, por si só, já não chega.
O futebol mudou profundamente, as equipas vencedoras não dependem apenas da inspiração de uma estrela, mas sim de uma estrutura sólida, de uma identidade de jogo, de um projecto consistente e de uma organização que começa muito antes do jogo ter início. É essa a maior diferença entre sonhar e vencer. Ao longo desta competição temos visto selecções que, há poucos anos, eram consideradas secundárias desafiarem gigantes do futebol mundial sem qualquer complexo de inferioridade.
Entraram em campo para competir, não para resistir, jogando com coragem porque sabiam exactamente quem eram e o que pretendiam fazer. Nada disso nasceu por acaso. Por detrás de cada vitória existiram anos de investimento na formação, na qualificação dos treinadores, na ciência do desporto, na análise de desempenho, na preparação física e, sobretudo, na estabilidade das instituições.
Por cá, temos paixão, talento, adeptos e história. O que continua a faltar é transformar esse património numa verdadeira cultura de excelência. No nosso futebol ainda é frequente mudar de treinador ao primeiro mau resultado, alterar projectos antes de amadurecerem e acreditar que a solução chegará através de uma contratação ou de uma mudança de direcção. Mas o Mundial ensinou-nos que os campeões não aparecem de repente, são construídos ao longo de muitos anos. Outra das grandes lições deste Mundial foi o desaparecimento do individua lismo.
O futebol moderno tornou-se profundamente colectivo, onde o avançado é o primeiro a pressionar, o extremo ajuda a defender e o médio ocupa vários espaços durante o jogo. Até o guarda-redes participa na construção ofensiva. Essa cultura colectiva ainda precisa de ganhar força entre nós já que durante demasiado tempo valorizamos o drible mais do que a decisão certa, o brilho individual mais do que o comportamento táctico. No futebol contemporâneo, vence quem toma melhores decisões, não necessariamente quem executa os gestos mais espectaculares. Também a ciência entrou definitivamente em campo.
As grandes selecções monitorizam cada treino, cada corrida, cada aceleração e cada sinal de fadiga. Nutricionistas, psicólogos, analistas de desempenho, fisiologistas e especialistas em dados trabalham diariamente para oferecer aos treinadores a melhor informação possível. O futebol deixou de ser apenas um jogo, transformou-se numa indústria do conhecimento.
Os países que hoje dominam o futebol internacional compreenderam que as pessoas passam, mas os projectos devem permanecer. As mudanças de dirigentes não significam mudanças de identidade, os treinadores sucedem se, mas os princípios continuam. Precisamos de um projecto nacional para o futebol que sobreviva às eleições, às mudanças de direcção e aos resulta dos de curto prazo.
Precisamos de investir seriamente na formação de treinadores, no fortalecimento das academias, na modernização do Girabola e na criação de competições juvenis mais fortes.
Precisamos de proteger o talento antes de o exportar e de criar condições para que os nossos clubes sejam verdadeiras escolas de alto rendimento.
O Mundial também mostrou que o tamanho de um país já não determina a sua competitividade. O que faz a diferença é a qualidade das decisões toma das quando ninguém está a olhar, como fez Cabo Verde.
Por: Luís Caetano








