Nada me passa como um rio quando vou ao merca do do Kikolo e vejo aquela gente em todo lugar, algumas paradas, outras a gritarem como se perdessem o fôlego ao apreciarem a tamanha agitação. Acredito que cada um, além dos motivos que os leva lá, carrega o desenho na palma da mão para vaguear e conhecer o mercado. O reflexo é um circuito que conecta as pessoas.
Os movimentos falam mais que as vozes das pessoas, o barulho não incomoda ninguém. Todos caminham na direcção certa procurando o seu produ to para levar em casa. Um dia desses, uma senhora que ali vendia fubá de bombó disse-me que as vendedeiras não dor mem tudo para levar a comida em casa, eu, como sempre, perguntei a porque razão não dormir se o sono faz bem ao corpo?! Parei e olhei a bancada da senhora, o rosto cinzento a poeira e uma lágrima no canto do olho! Às vezes, com meus dois tomates sinto-me no céu colo, ou talvez no útero daquela tia que tem a bancada de tomates mais bonita do mercado.
Sinto-me na lua, tal vez na rua, talvez dentro de um lo cal com calor a vapor, onde muita gente corredor nas veias à procura do pão para as crianças. Ela era uma deusa que, com sua anca e fruto vermelho comandava aquela praça com sua voz tenaz. Estar ali sempre foi meu maior desejo, lá via o verdadeiro significado de sacrifício de viver e via a vida como um deus, como um deus que não come de fome essas crianças, essas crianças da geração do ‘ouro’ que têm o terço pendurado nos seus pescoços.
Aquela praça era a minha vaidade, a minha verdadeira razão sempre que olhava para os seus atributos. Há dias que fico aflito, como também, há dias que como em to do momento vendo as coisas daquele mercado.
Se for merecido não sei, mas sei que um eventual momento conecta-me sempre fi co na praça. Se calhar faz-me lembrar a época que minha mãe, Rebeca Nambumba, vendia pão com frango na Ilha de Luanda e levava me todos os dias às 5h, o caminho era pelo Roque Santeiro, foi dali onde aprendi ver as bancadas das tias, o tom das zungueiras na minha orelha que olvidava os meus sensórios.
Era vida! Nada se absteve, tão pouco as surdinas que a compaixão alheia se movia tão depressa: era a razão de nunca perder a essência que estava dentro de mim, afinal, o sítio que nos viu crescer deixa sempre vestígios, mesmo quando a forma de uma criança não se encaixa na sociedade, um dia se fará gigante e verá uma bancada (de toma te) como altar, para expandir fé e prosperidade à quem não mais sonha com um bife ou uma picanha no prato!… Até aqui, livro-me de páginas viradas, arremesso-me longe onde os prazeres dos mais desejados não se ajoelham.
Aplaudo essas mães que, com o berço no seu colo comem do seu fruto o suor amargo à vinda de casa! Aqui fica a praça dos meus sonhos, que dá vida aos que não têm vozes, e tocam pela manhã no coração dos clientes o chamado do desejado; o seu lindo produto do campo: O PRECIOSO TOMATE!
Por: N’DOM CALUMBOMBO








