Há uma cena que se repete em quase todos os campos de futebol de Angola. No bairro, no pelado, no campo da escola, no torneio de fim-de-semana ou num estádio maior, há sempre alguém sentado no banco de suplentes com a certeza íntima de que também sabe jogar. Às vezes, é o miúdo mais magro, que chegou tarde porque teve de ajudar em casa.
Outras vezes, é o jogador que treina bem, mas ainda não conquistou a confiança do treinador. Há também o que entrou no clube sem padrinho, sem empresário, sem nome conhecido, sem alguém na bancada a gritar por ele. Ele está ali. Equipado. Atento. Pronto. Mas o jogo passa. E há vidas inteiras que se pare cem com esse banco.
África tem muitos talentos sentados no banco de suplentes. Não porque lhes falte vontade. Não porque lhes falte inteligência. Não porque lhes falte coragem. Mas porque, muitas vezes, o jogo já começou antes de eles serem chamados.
Na escola, há alunos capazes que nunca encontram o professor certo, o livro certo, a orientação certa. No bairro, há jovens com disciplina e visão, mas sem rede, sem crédito, sem porta de entrada.
No desporto, há atletas que correm mais do que as oportunidades que recebem. Na cultura, há artistas que carregam uma África inteira na voz, no corpo e na palavra, mas continuam à espera de palco, indústria e circulação. Nas empresas, há trabalhadores competentes que conhecem melhor a casa do que muitos decisores, mas raramente são convidados para pensar o futuro.
O banco de suplentes não é apenas um lugar no futebol. É uma metáfora nacional. Todos conhecemos alguém que podia ter sido mais. Um colega de escola que escrevia melhor do que todos, mas ficou pelo caminho. Um vizinho que consertava tudo com as mãos, mas nunca teve oficina. Uma jovem que liderava naturalmente, mas foi ensinada a não incomodar. Um atleta que desapareceu depois de uma lesão.
Um profes sor brilhante que nunca saiu da sala apertada. Um funcionário discreto que segura a instituição, mas nunca aparece na fotografia. África está cheia destas biografias interrompidas.
E talvez o verdadeiro desenvolvimento comece quando um País deixa de perguntar apenas quem venceu, e começa a perguntar quantos ficaram no banco sem razão justa.
O mérito, entre nós, é muitas ve zes celebrado no discurso e traí do no método. Gostamos de dizer que o talento fala por si. Mas is so raramente é verdade. O talen to precisa de ser visto, treinado, protegido, corrigido, financiado e colocado em jogo. Sem isso, o talento vira apenas uma história bonita contada tarde demais.
No futebol, um treinador sabe que não basta ter bons jogadores. É preciso ler o jogo, preparar alternativas, confiar na formação, saber substituir no momento certo.
Uma equipa que nunca olha para o banco fica previsível, cansada e injusta. Pior: começa a perder jogadores antes mesmo de os conhecer. As nações também perdem assim.
Por: EDGAR LEANDRO








