Os miúdos do bairro até jogavam à bola no campo de areia que fi cava à volta da casa. Mas ninguém aceitava meter os pés para dentro dela. O cheiro nauseabundo que de lá saía não passava pela cabeça de ninguém que era provenien te dos restos mortais de muitas crianças que, misteriosamente, desapareciam do bairro.
O sumiço das crianças era es tranho. Bastava uma distracção dos pais para que muitas crian ças desaparecessem, até o dia em que descobrimos que, afi nal, os miúdos eram tortura dos, massacrados e enterrados ali, naquela casa escura, aban donada desde o princípio dos anos de 1980.
O bairro só se deu conta do inferno que era aquela casa escura depois do desaparecimento do Tinito, filho caçula da tia Sangueve e da mana Kindinha, que moravam a poucos metros da residência. — Mana Kindinha, corre, corre mesmo. Encontrámos o corpo do Tinito na casa escura! — gritava a Felina, a vizinha conhecida, na altura, como a grande fofoqueira.
— Felina, começa a ter um pouco de calma ao transmitir o recado. Você já está a ver do jeito que a mana Kindinha e o tio Sangueve têm estado desde que o Tinito desapareceu. E a tua forma assustadora de dar o reca do acaba por piorar a situação — ralhava a Tiatita, que, momentos depois, também seguiu atrás da mana Kindinha, que rebentava em choro do lado de fora da casa escura.








