Sempre que me desloco a Benguela, em trabalho ou turismo, continua a estimular a minha curiosidade o conjunto de residências construídas na zona dos Cabrais, a escassos quilómetros da vila sede do Lobito. As residências, que hoje ganharam várias colorações, na sequência da reabilitação e do aumento das mesmas, na vigência do mandato do governador Luís Nunes, surgiram por conta de uma tragédia que se abateu sobre o Lobito em Março de 2015.
Morreram dezenas de pessoas, casas foram arrastadas pela correnteza das águas e os seus moradores afastados naquelas montanhas, que noutras partes do mundo são apetecíveis para projectos imobiliários de ponta. Foi à zona dos Cabrais, onde os sinistrados haviam sido encaminhados.
Na esperança de um futuro melhor, com os apoios prestados pelo próprio Executivo e por diversas entidades, entre políticas, religiosas, empresariais e desportivas. Embora se possa observar hoje, sem quaisquer contrariedades, que as condições de habitabilidade tenham mudado significativamente entre os morros do Lobito e as residências dos Cabrais, a verdade é que até à concretização foi quase uma eternidade.
Vimos sonhos a definharem-se em tendas, frustração e alguns sinistrados que acabaram por perder as suas vidas antes mesmo de terem visto concretizado o sonho da casa própria num espaço em que a chuva pudesse ser sinónimo de alegria e não de terror e medo, como se viu agora em Abril do corrente ano com as furiosas águas do Cavaco.
Outra vez, em Benguela, as águas da chuva voltaram a enlutar e a destruir residências, indústrias e infra-estruturas públicas, remetendo um número considerável de cidadãos a uma situação de precariedade. Sem casas, documentos e bens que possuíam.
Outra vez, em Benguela, claro, surge a necessidade extrema de se retirar populares, para que sejam realojados num espaço condigno, diferente das residências que muitos possuíam às margens do Cavaco, tal como vimos depois dos tristes acontecimentos de 2015, isto é, há, sensivelmente, 11 anos. Alojados de forma provisória em tendas no campismo e arredores, os sinistrados clamam por habitações condignas.
O Executivo acedeu prontamente ao chamado, realçando-se que, até ao momento, mais de 100 mil milhões de kwanzas estejam disponibilizados para a concretização de tal desiderato. Apesar do sucesso, parcial, que se pode observar dos Cabrais, onde algumas placas reclamam pela edificação e conclusão das casas, o Executivo central e o local têm a possibilidade de fazer diferente e merecer a plena confiança dos cidadãos.
E pode-se começar pelo cumprimento dos prazos, a qualidade exigida e a transparência na entrega das residências. Caso contrário, tal como nos Cabrais, muitos estarão anos depois à espera de uma fase que pode não chegar. Nunca.








