No desporto angolano, há uma palavra que se repete como uma promessa, mas raramente se cumpre com a profundidade que se exige: verdade. E a verdade desportiva, essa que não se negocia, não se veste com cores clubísticas nem se adapta a conveniências de ocasião, continua a ser um terreno instável, fértil para discursos bonitos, mas pobre em práticas reais. Há anos que me bato em insistir em lembrar o óbvio: não existe crescimento sem verdade competitiva.
Não há potência desportiva africana e mundial que se construa sobre resultados artificiais, bastidores nebulosos ou silêncios cúmplices. O talento existe, basta olhar para os nossos campos de futebol de terra batida, para os pavilhões improvisados, para a paixão pura que move atletas desconhecidos, mas o talento sem justiça é apenas potencial desperdiçado.
O problema nunca foi a falta de investimento. O Estado angolano, juntamente com patrocinadores privados, tem colocado recursos consideráveis no desporto. O verdadeiro nó está na ausência de uma cultura sólida de responsabilização. Investe-se, mas pouco se cobra, gasta-se, mas raramente se explica. E nesse vazio cresce um sistema onde nem sempre ganha quem merece, e isso corrói tudo: a credibilidade das competições, a motivação dos atletas e a confiança dos adeptos.
É aqui que a exigência precisa deixar de ser vista como um ataque e passar a ser encarada como compromisso. Nos grandes contextos desportivos e empresariais, investir implica medir, avaliar e corrigir. Resultados não são apenas os troféus, são processos transparentes, contas claras e decisões justificadas. Cada kwanza aplicado no desporto deve carregar consigo uma pergunta simples: que retorno desportivo e social está a gerar? Dirigentes têm a responsabilidade de liderar com ética e não apenas com ambição. Empresários e patrocinadores precisam abandonar o papel passivo e assumir-se como agentes de fiscalização activa.
Não basta associar marcas ao desporto, é preciso proteger o valor daquilo que se financia. Porque, quando a verdade desportiva é violada, não é apenas um jogo que se perde, é todo um ecossistema. Mas talvez o maior teste de carácter esteja dentro das quatro linhas e nos balneários. Atletas e treinadores são, simultaneamente, vítimas e guardiões deste sistema. São eles que sentem na pele as injustiças, mas também são eles que, em momentos decisivos, podem escolher entre ceder ou resistir.
Denunciar práticas lesivas exige coragem, uma atitude que nem sempre é recompensada, mas que é indispensável para qualquer mudança real. E os jornalistas? Não podem oscilar entre a denúncia e o silêncio comprometedor. O jornalismo desportivo, quando se limita ao resultado e ignora o contexto, torna-se cúmplice. Perguntar, investigar e expor não é hostilidade, é serviço público. O apelo ao Ministério da Juventude e Desportos surge, neste cenário, não como apenas formalidade institucional, mas como necessidade real. Regular, fiscalizar, punir quando necessário e, sobretudo, criar mecanismos que previnam, em vez de apenas reagir.
A verdade desportiva não pode depender da boa vontade de alguns, deve ser garantida por sistemas sólidos e regras aplicadas sem excepções. Angola tem tudo para ser uma referência desportiva no continente africano, mas essa ambição não se alcança com inverdades. Quanto mais tempo adiarmos a verdade, mais distante ficará esse futuro.
A mudança não virá de um único discurso, nem de um gesto isolado, acontecerá de uma ruptura colectiva com a normalização do errado. Virá quando perder de forma justa for mais aceitável do que ganhar sob suspeita. Nesse dia, talvez possamos dizer com orgulho que começámos finalmente a jogar limpo.
Por: Luís Caetano









