É consensual, tanto no plano académico como na experiência quotidiana dos cidadãos, que as vias de comunicação constituem um factor estruturante do desenvolvimento económico, social e territorial de qualquer país. Desde cedo aprendemos na escola que estradas não são apenas infra-estruturas físicas, mas instrumentos essenciais de integração nacional, regional, dinamização económica e mobilidade social.
Em Angola, é justo reconhecer que, ao longo dos últimos anos, o Estado tem envidado esforços significativos no domínio da reabilitação e expansão da rede rodoviária nacional. Existem hoje mais estradas do que no passado, ligando províncias, municípios e comunas que antes se encontravam isolados. Esse esforço, por si só, merece reconhecimento institucional. Contudo, a quantidade não pode continuar a sobrepor-se à qualidade. Não escrevo estas linhas na qualidade de engenheiro ou técnico de obras públicas, mas como cidadão atento, académico e jovem empreendedor, que percorre o país e se preocupa com o futuro sustentável de Angola.
A observação directa das nossas estradas, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, revela uma realidade preocupante: vias recentemente reabilitadas que rapidamente se degradam, ausência de manutenção contínua e corredores estratégicos em estado que compromete seriamente a circulação segura de pessoas e mercadorias. O contraste torna-se ainda mais evidente quando se atravessam as nossas fronteiras.
A título de exemplo, a ligação rodoviária entre o Lubango e Namíbia, passando pela Santa Clara, expõe, de forma clara, a diferença entre Angola e a vizinha Namíbia. Bastam poucos quilómetros para se perceber que, do lado namibiano, a estrada oferece melhores condições de circulação, maior durabilidade e segurança. E isto num país com menores recursos financeiros e menos tempo de independência do que Angola. Esta comparação não pretende desvalorizar o esforço nacional, mas antes provocar reflexão.
Se países vizinhos, com realidades económicas mais modestas, conseguem garantir estradas de melhor qualidade, então o problema em Angola não reside apenas na falta de recursos, mas também em questões de planeamento, fiscalização, execução técnica e responsabilização. Ao celebrarmos 50 anos de Independência e mais de duas décadas de paz, seria estratégico que Angola apresentasse, pelo menos, corredores rodoviários internacionais em condições exemplares.
Estradas bem construídas e mantidas são determinantes para atrair investidores, facilitar o turismo, reduzir custos logísticos e permitir o escoamento eficiente da produção nacional, sobretudo agrícola, para os grandes centros urbanos e para os mercados regionais da SADC. Estradas degradadas não atrasam apenas viagens; atrasam o desenvolvimento, aumentam os custos de vida, comprometem a competitividade da economia e colocam em risco vidas humanas.
É tempo de Angola passar de uma política centrada na inauguração de obras para uma política orientada pela qualidade, durabilidade e manutenção das infra-estruturas. O país não precisa apenas de mais quilómetros de estrada, mas de estradas que resistam ao tempo, ao clima e ao uso intensivo, servindo verdadeiramente o interesse público. Investir bem nas estradas é investir no futuro de Angola. E o futuro exige não apenas vontade política, mas também rigor técnico, transparência e visão estratégica de longo prazo.
POR: KATEVE BAMBI









