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O lugar que cega

Jornal OPaís por Jornal OPaís
16 de Fevereiro, 2026
Em Opinião
Carlos Augusto

Carlos Augusto

O recado chegara bem na mira do subordinado sempre que a solidão do patrão se acendeiava na berma do fervor que não alimenta o p’ovo. Não se janta pão como com chá e nem se matabicha funge com cabuenha para alimentar o moral e matar o bicho que nos rói o osso. Esta sensação de sentir fulgor é antiga, bem antiga mesmo, falava Simão em Cafunfo, na Luanda Norte:_ quando um dia isso virar, vai dar um bom barulho de verdade.

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Um dia desses íamos à missa, e quando o padre dizia “amém”, para nós não fazia sentido, aliás todos os fiéis colocavam os olhos grossos quando o padre levantava a hóstia no momento da eucaristia. Simão lambia os lábios, mordia os dentes e transpira nos momentos da oração. Louco ficava como lobo no meio de todos, e todas as vezes que se deslocava em pé sentia a fumaça do teríbulo enquanto o acólito se movia todas as vezes que levantava. A igreja é um desenho, e é assim que a vemos.

Não é por acaso que nos reinventarmos quando estamos fora dela. Quer dizer o quê, Simão? Quero dizer que, estar aqui diz muita coisa sobre nós, de como vivemos, pensamos e morremos. Muitas vezes as orações são partidas e partem ocasionalmente. _Entenda, Kanda, aprendemos isso enquanto crianças na catequese, que o Senhor todo-poderoso ouve todas as orações, não importa o segundo, minuto, hora, dia, mês ou ano. Os membros que ouviam Simão ficavam quietos como se Deus o levasse a alma quando o coral cantava, aliás, não era habitual falar dessas coisas em plena missa.

Quando se aproximava o ofertório, eu pus a mão no bolso, Simão observava anteciosamente quanto colocaria ao balaio. Era um aviso fora do normal, se calhar ninguém via a tamanha ecuridão que vinha do fundo do poço. Estava com fome! No final, Kanda chamou Simão e lhe perguntou por que do seu posicionamento na missa. Ele, sem vergonha, disse: estive cego e só via santos. Foi uma resposta prudente para não descodificar o que aconteceu na realidade.

Após a missa terminar, o padre saiu do santuário e perguntou o que se passava, os dedos do Simão tremiam, as pernas encalhadas e pôs-se a correr como devorador de passos. Do fundo ninguém o via, era como se os santos que via na missa o devorassem por completo!…wLembro-me bem, um dia desses vinha da Capenda Camulemba, Simão já se abrira comigo.

Naquela altura, dava aulas no ensino público e Lunda Norte era habitada por pares de patos e todos ficavam enfurecidos sempre que os cães fossem às ruas exigir os seus direitos nas ruas da cidade capital, Dundo. Kanda pensava que cada um tivesse direito à fome por viver ali. O novo não se espera!… O povo tinha que dar o cabedal mesmo quando os animais em cima deles os apertavam de forma a desejar!… poeta, cronista e contista

POR: N’DOM CALUMBOMBO

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