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Milhares de veículos afectados e um possível boicote: gasolina da Bolívia destrói carros no país

Jornal OPaís por Jornal OPaís
16 de Fevereiro, 2026
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Nas últimas semanas, milhares de veículos em toda a Bolívia foram parar em oficinas devido a problemas de funcionamento. O veredicto dos mecânicos foi unânime: combustível de má qualidade danificou parcial ou totalmente os motores

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Segundo sindicatos de motoristas, alguns tiveram que gastar até USD 6.500 para colocar os seus meios de sustento em funcionamento novamente. O governo, liderado pelo presidente Rodrigo Paz, reconheceu falhas no controlo de qualidade da gasolina vendida nos postos. Diante dos protestos de motoristas sindicalizados, o presidente prometeu reembolsar o custo dos reparos e afirmou que se tratava de um “boicote” contra a sua administração.

O governo aponta a Agência Nacional de Hidrocarbonetos (ANH) como responsável pelos transtornos. Essa entidade estatal deveria realizar os controlos correspondentes, mas falhou na sua missão. Portanto, em 11 de Fevereiro, a directora da agência, Margot Ayala, renunciou, alegando que faltavam os recursos necessários para analisar a qualidade da gasolina. Ao longo de Fevereiro, ocorreram diversos protestos de motoristas, principalmente nas cidades de La Paz, Cochabamba e Santa Cruz. Muitos motoristas exibiam garrafas contendo gasolina comprada em postos: o combustível tinha uma coloração amarelo-alaranjada, com um sedimento escuro e espesso no fundo dos recipientes.

Em 13 de Fevereiro, motoristas realizaram um bloqueio na região tropical de Cochabamba, interrompendo o tráfego na rodovia central. No entanto, ao anoitecer, eles suspenderam o bloqueio depois que o governo se ofereceu para negociar e chegar a um acordo sobre os valores e procedimentos de reembolso dos custos de reparo. Ayala explicou que a legislação actual limita a autoridade da ANH a análises básicas de qualidade, realizadas com os três laboratórios móveis da agência. Ele revelou que o orçamento para esses testes é de apenas 4 mil pesos bolivianos.

Segundo a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), foi distribuída “gasolina desestabilizada”, que se contaminou ao ser misturada em tanques de armazenamento com “gasolina residual”, supostamente adquirida durante a administração de Luis Arce (2020- 2025). Análises posteriores revela- ram que o combustível contaminado apresentava altas concentrações de goma e manganês. Em conferência de imprensa, o ministro de Hidrocarbonetos e Energia, Mauricio Medinaceli, fez uma analogia com o óleo de fritura que não é trocado há anos.

“Mesmo que se compre óleo novo e de alta qualidade posteriormente, ao misturá-lo no mesmo recipiente, traços do óleo antigo permanecem, afectando o resultado.” Dois parlamentares e o vice-presidente Edmand Lara entraram com uma acção judicial contra o presidente da estatal petrolífera YPFB, Yussef Akly, por negligência na limpeza dos tanques onde a gasolina foi contaminada. O contexto do combustível A Sputnik consultou o economis- ta e especialista em energia Omar Velasco, que contextualizou a questão.

Ele lembrou que, quando Paz assumiu o cargo em Novembro de 2025, a Bolívia enfrentava uma grave escassez de combustível. “Uma das principais prioridades do governo Paz era garantir o abastecimento de combustível. Nestes três meses de mandato, ele obteve progressos relativos. E, nesse meio tempo, eliminou o subsídio aos combustíveis”, que, no ano passado, resultou em perdas de USD 3,5 biliões para o Estado, comentou.

“Essa seria uma das conquistas da sua gestão económica. No entanto, nas últimas semanas, começaram a surgir relatos sobre a manipulação da composição da gasolina comum e dos aditivos utilizados na venda da gasolina premium. Estima-se que hoje mais de 2.000 carros estejam em oficinas mecânicas por motivos semelhantes”, acrescentou Velasco. Acúmulo de carbono nos pistões, válvulas empenadas e quebradas, além da baixa compressão da combustão interna, são alguns dos danos causados pela gasolina contaminada.

“Os mecânicos chamam isso de ‘doença do doce’”, descreveu Velasco, referindo-se à textura espessa e escorregadia que adere às partes danificadas do motor. O economista expressou cepticismo em relação à versão dos factos apresentada pela YPFB: “Nos três meses de mandato de Paz, é difícil acreditar que ainda existam vestígios do estoque de combustível da administração Arce. Diante da insistência dos sindicatos de motoristas, o governo teve que admitir que houve má gestão da gasolina. Essa negligência técnica levou à demissão de 360 funcionários da ANH”, a quem Paz culpou pelo “boicote”.

O valor que o governo destinará para indemnizar os motoristas afectados ainda não foi especificado. “O total será realmente alto devido ao aumento do custo das peças automotivas, causado pelas flutuações na taxa de câmbio do dólar”, avaliou Velasco. A denúncia do vice-presidente Lara contra a Akly também alega a compra de combustível com uma margem de lucro de USD 4 milhões. A Assembleia Legislativa Plurinacional formou uma comissão especial de 11 legisladores, que investigará essa questão, bem como a má qualidade do combustível já vendido.

Aspectos técnicos Ricardo Cardona, especialista em energia e membro do Comité de Defesa do Património Nacional (CODEPANAL), disse à Sputnik que trabalhou na YPFB anos atrás. “Conheço o processo de limpeza dos tanques quando o combustível chega. Sempre se toma cuidado para garantir que o combustível armazenado em tanques gigantes (com capacidade para 5 milhões de litros) esteja livre de impurezas. Matéria inorgânica se deposita no fundo dos tanques. Isso precisa ser limpo regularmente, mensalmente. O combustível sempre contém algum material inorgânico; isso acontece no mundo todo. E essa função é de responsabilidade da YPFB.”

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