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Segunda temporada do ‘Caldo do Poeira’ celebra música e memória no palco do Prova D’Arte

Augusto Nunes por Augusto Nunes
1 de Setembro, 2025
Em Cultura, Em Cartaz

Numa simbiose palavra e música, música e palavra, Suzanito, Mister Kim e Zé Manico trouxeram à ribalta sucesso que marcaram gerações distintas num emocionante regresso do tão aguardado “Caldo do Poeira”, que veio reviver os sucessos do “Trio da Saudade”

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A Segunda Temporada do Caldo do Poeira, da Rádio Nacional de Angola, regressou ontem, no Espaço Prova D’Arte, com muita emoção, animação e nostalgia, homenageando o inesquecível Trio da Saudade: Artur Nunes, David Zé e Urbano de Castro.

O evento, que reuniu mais de seiscentas pessoas, entre caldistas, passistas, entres outras individualidades, foi dividido em sete blocos distintos, repartido em dois períodos, o da manhã e o da tarde.

O período da manhã, que foi o primeiro, incidiu sobretudo na dança proporcionada pelo grupo anfitrião, Prova D’ Arte aos caldistas e prosseguiu com também Trio Suzanito, Zé Manico e Mister Kim, que fazendo uma incursão no tempo recordaram os sucessos dessas ilustres figuras que durante anos marcaram os bailes de salões nas diferentes turmas dos nossos musseques e arredores.

Nesta data memorável que marcou o regresso definitivo do Caldo, Suzanito voltou a abrilhantar o público com a interpretação do tema “Mena” de Artur Nunes, seguido de Zé Manico com o “Kalunga Nguma” e “ Semba Lamba” de Urbano de Castro, a que se seguiram os últimos temas do bloco com “Candinha” de David Zé e “Mukongo” de Urbano de Castro.

O segundo bloco foi reservado ao músico Urbanito Filho, que interpretou “Revolução de Angola” e “Tia”. Já o terceiro momento foi retomado por Suzanito, com o tema “Mukila” de Artur Nunes, “Kuala Kituxi” de David Zé, por Zé Manico e “Rosa Maria”, por Mister Kim, culminando o momento com “Angola Ya Dila” de Artur Nunes, “Rumba Negra” e “Rumba Za Kukina”.

Homenagem ao Trio da Saudade

O Caldo servido com imensa saudade, teve o seu ponto mais com a homenagem a título póstumo ao Trio da Saudade, do memorável Conjunto Aliança FAPLA Povo com a outorga de diplomas de mérito as suas famílias.

Satisfeitos com o reconhecimento, unânimes enalteceram a iniciativa da Rádio Nacional e garantiram dar continuidade as feitos dos seus entequeridos, reeditando as suas obras, caso as condições assim o permitam. Cada familiar aproveitou o momento para apresentar o testemunho em relação ao Trio considerado como um dos monstros da música angolana.

Numa simbiose palavra e música, música e palavra, os caldistas festejaram a música e a memória. O Caldo do Poeira, que por sinal era realizado no último Domingo de casa mês, regressa com mesma dinâmica, mesma energia e com o mesmo foco: promover a música angolana e recordar os seus fazedores cujas músicas marcaram e continuam a marcar diferentes gerações.

Com homenagens a título póstumo, o evento prosseguia mais além, com momentos singulares em que recolhiam-se informações e outros depoimentos sobre a história da música angolana contemporânea, bem como os seus protagonistas.

Banda Movimento sempre em alta

Ao ritmo da icónica e muito experiente Banda Movimento, o Caldo prosseguiu com a armação dos sucessos do mesmo Trio na voz de Suzanito, Mister Kim e Zé Manico que, de um jeito ousado, quase encarnavam os homenageados nas suas performances em palco.

Os blocos seguintes foram preenchidos por Dom Caetano e Maya Cool, que brindaram os presentes com “Uma Wr Mua Ngola”, de Artur Nunes, “ancoro” e “Isabel Saurimo”, de Visconde.

O sexto bloco foi preenchido por Dom Caetano com os temas, Tanaku, parabéns em português, Ue Goya Ki Sokana e Nova Cooperação. Encerrou o sétimo e último bloco, o trio Suzanito, Zé Manico e Mister Kim.

Com mestria, investigação e muita dedicação, a equipa de Produção do Programa “Poeira trouxe a ribalta a mística como foi concebido desde a Kilapanga, a Kazucuta, a Cyanda, a Kabetula, o Semba, entre outros que constituíram o manancial de variedades para perpetuar a musicalidade angolana de raiz.

Ponto de encontro e de reencontro

Horas antes do evento, à procura de ingressos continuava visível. Ninguém queria ficar de fora e ser contado por alguém, e tudo indicava que, pela demanda registada na sua aquisição, muitos acabaram por ficar apenas pela transmissão do programa em directo no Canal A, da Rádio Nacional, uma vez que o recinto tem uma capacidade de congregar apenas 700 pessoas.

Nesta correria da compra de bilhetes, amigos que já não se viam durante vários anos, voltaram a deparar-se no local, enquanto decorriam os preparativos do evento, o que fez do Espaço Prova de Arte, um “Ponto de Encontro e Reencontro” dos convivas, das famílias, dos artistas e de amigos.

Foi neste ambiente que músico José Baltazar, vindo da província de Benguela em serviço, que aproveitando repentinamente a folga teve, decidiu ir ao recinto onde, por consciência, acabou por encontrar-se com um velho amigo que não via desde o último Caldo realizado no Centro Recreativo e Cultural Kilamba.

Entre abraços e sorrisos, Baltazar disse a nossa reportagem, que o retorno do programa, “Caldo do Poeira” chegou no momento certo, uma vez que permitirá a todos os angolanos sintonizados ao canal, o acompanharem ao vivo em directo pela rádio tal como sempre assim procedeu, e nas diferentes plataformas digitais via internet.

Feliz pelo retorno, recordou que desde a altura em que o programa “Caldo do Poeira”, deixou de ser realizado e emitido pela RNA, a partir do Centro Recreativo Kilamba, em Fevereiro de 2007, sendo substituído pelo actual “Muzongué da Tradição”, notou-se um vazio no que diz respeito à divulgação do espectáculo e adesão do público.

Quem também não se deixou passar despercebido é o seu amigo, Israel Martins, que olhando para o impacto e a importância do programa, enalteceu a direcção da Rádio Nacional, por resgatado o programa que parecia estar voltado ao esquecimento.

“O regresso do Caldo do Poeira é uma mais-valia para todos nós angolanos, uma vez que do cardápio a que nos fomos habituando, nasceram grandes debates e teses importantes sobre a nossa identidade, não só ao nível da música, mas também na afirmação da nova geração de músicos, e o enriquecimento de arquivos documentais”, realçou.

Recorde-se que o projecto, criado há mais de 20 anos, teve a sua edição inaugural a 26 de Agosto de 2001, no antigo refeitório da Rádio Nacional de Angola. Ao longo dos nos, percorreu 14 das então 18 províncias do país e realizou mais de 90 edições, muitas delas com o suporte instrumental da Banda Movimento da Radio Nacional de Angola.

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