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KIM FREITAS: “As crianças têm estado muito desocupadas, porque os adultos não as orientam”

Sebastião Félix por Sebastião Félix
29 de Maio, 2026
Em Sociedade, Última Hora

A 72 horas das comemorações do Dia Internacional da Criança, 1.º de Junho, o jornal OPAÍS entrevistou o jornalista e produtor de música infantil da Rádio Nacional de Angola (RNA), Kim Freitas, que reiterou que a criança angolana não é lembrada apenas nesta data. O também professor de Língua Portuguesa, nascido no Rangel, em Luanda, defende que as crianças devem estar sempre ocupadas. Durante a conversa, Tio Kim, como também é conhecido, adiantou que o futuro de um país depende dos petizes, por isso é importante a colaboração de todos. Após concluir a licenciatura em Língua Portuguesa no Instituto de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, Kim Freitas divide o jornalismo com outras tarefas, proferindo seminários e palestras sobre a criança e outros temas conexos

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Em Angola, como é que vê hoje a criança em Angola?
Muito obrigado pela oportunidade. Em Angola e não só, vejo a criança como um ser humano normal, que deve ter atenção para crescer e ser saudável, com equilíbrio, apoio e o engajamento de todos quanto à sua formação multifacetada.

Apesar de ser jornalista, tem uma formação superior em Língua Portuguesa no Instituto de Ciências da Educação de Luanda (ISCED). Ser professor levou-o também a gostar de crianças?
Começa no ensino primário com a orientação pedagógica de professores, também na OPA, em 1975, com a educação patriótica, com orientação para os estudos escolares e depois, em 1986, de forma espontânea, no Jornal de Angola, onde fazíamos a página infantil.

Na época, que força tinha o Suplemento Infantil 1.º de Dezembro do Jornal de Angola?
Nesse período, a página era muito lida e, entre outros assuntos, tinha letras de músicas infantis, quebra-cabeças, adivinhas, anedotas e notícias.

Em 1989 começa com o mesmo processo na Rádio Nacional de Angola (RNA) e em 1991 na Televisão Pública de Angola (TPA), no espaço infantil. É um compromisso com as novas gerações?
Até hoje não paramos. A criança deve ter sempre a oportunidade de sonhar e ter direitos, ou seja, um lar, alimentação, nacionalidade, saúde, escola, vida condigna, para que cresça e seja um adulto responsável e útil para a sociedade, de modo a não delinquir.

Não é assim tão fácil como se pensa trabalhar e coordenar projectos e programas infantis?
Sim, mas a formação, a leitura e os anos de experiência fizeram com que a profissão fosse cada vez mais apaixonante.

Lembra-se de algumas pessoas com quem trabalhou no Suplemento Infantil 1.º de Dezembro do Jornal de Angola?
A Nicolina Neto, que era coordenadora, depois a Sara Fialho, Eugénia Silva, Manuel Correia, Simão Bequengue, Miguel Pacheco, Francisco Vianeiro, António Campos “Titilá”, Maria Aline, Sérgio Piçarra, Lito Silva, Hugo Fernandes e outros.

Nesse tempo, o sistema era monopartidário. Que cuidados tinham com a informação para as crianças?

Tínhamos orientação patriótica, pertencíamos à Organização de Pioneiros Agostinho Neto (OPA) e à JMPLA, braço juvenil do MPLA. No entanto, vale lembrar que a educação patriótica era de facto muito acentuada; tínhamos de cumprir os princípios da OPA, ser pioneiro disciplinado, respeitar os direitos da organização e cumprir as ordens emanadas pela organização. Tudo corria bem.

Tem saudades daquele tempo?
Alguma saudade sim, porque, às vezes, as mudanças não significam desenvolvimento. Do que nos estamos a beneficiar hoje é de um trabalho feito há décadas. Os carros, os computadores e os telefones são invenções criadas há muito tempo por especialistas que estudaram e o fizeram para gerar desenvolvimento positivo.

O que pretende dizer com a afirmação anterior?
O desenvolvimento não pode gerar negativismo, mesmo quanto à questão da alimentação, cruzamento de animais e plantas; às vezes podem ter consequências negativas e, por isso, têm-se verificado doenças cancerígenas assustadoras. É preciso deixar tudo no tempo de Deus. Temos de mudar em função de um toque divino. O que se assiste hoje no mundo é uma corrida desenfreada e o termo que se usa agora é a globalização.

Por que razão?
Globalização sim, se todos estamos alinhados. Se não estamos alinhados, é melhor não haver globalização, porque Deus fez tudo perfeito, este mundo tem espaço para todos, tem água para todos, tem chão para todos. Somos tantos no mundo, cerca de 6,5 mil milhões de habitantes, e há espaço para mais outros 5 mil milhões. Depois de 1991, o sistema mudou. Hoje há crianças a cantarem músicas obscenas.

Como se pode inverter o quadro?
Isto deve ser refeito se cada instituição ocupar o seu lugar e cumprir o seu dever. Às vezes ficamos de mãos atadas, porque em Angola muitas instituições não sabem ocupar o seu lugar e cumprir o seu dever. Todo o mundo quer mandar e depois ninguém quer fazer.

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