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Benguela, a cidade das acácias rubras “desaparecidas”

Jornal Opaispor Jornal Opais
26 de Abril, 2018
Em Sem Categoria

Por ocasião do Dia Mundial da Terra, assinalado a 22 de Abril, o mestre em Ambiente e Ordenamento do Território, João Buaio, evidenciou que em Benguela, múltiplos comportamentos dos cidadãos têm prejudicado gravemente a atmosfera, oceanos, solos e seres vivos. Na sede municipal, baptizada por “Cidade das Acácias Rubras”, estas árvores estão cada vez mais sumidas

POR: Zuleide de Carvalho,
em Benguelat

Dificilmente se encontra na província de Benguela quem desconheça por que motivo o município sede ficou afamado com o cognome “Cidade das Acácias Rubras”. De tão óbvia a razão, bastava sair-se à rua para ver e perceber. Isto porque, de há uma década para trás, tão logo Novembro chegasse, Benguela cobria-se de um manto vermelho vibrante, com o desabrochar das flores das acácias no topo das árvores, dando vida e cor à cidade. Todavia e, lamentavelmente, as árvores que ao longo de tantos anos protagonizaram a beleza do quotidiano citadino a cada época datada para florir, nos últimos dez anos estão cada vez mais desaparecidas.

A falta de acácias, e árvores em geral, é um problema prejudicial à natureza, de tal modo que o ambientalista João Buaio teme que Benguela se esteja a transformar na “cidade das acácias rubras desaparecidas”. Em 2012, o internacionalizado escritor Angolano José Eduardo Agualusa escreveu: “Um dia, quando voltarmos – se voltarmos algum dia – haverá ainda acácias rubras florindo nos quintais?”. Se o escritor visitasse hoje Benguela, com certeza que ficaria bastante triste ao constatar que a tendência é já não haver. Logo, o mestre em Ambiente e Ordenamento do Território, João Buaio, aconselha a Administração Municipal de Benguela e sociedade civil a plantarem acácias rubras, nas ruas e nas suas residências, preservando-se natureza e nome da cidade.

Impacto ambiental da irresponsabilidade social

Cabe a todos nós, habitantes do planeta Terra, cuidar dele e assegurar- lhe sustentabilidade, almejando que muitas milhares de gerações possam ainda habitar e desfrutar do único lugar seguro para a existência de vida. Por isso, o ambientalista João Buaio condena as práticas reprováveis dos cidadãos, que têm vindo a piorar significativamente com o chegar de cada novo ano, deixando males irreversíveis no meio, com repercussões globais. Na província de Benguela, o também professor universitário verifica que as pessoas estão cada vez menos preocupadas com o ambiente. Convicção que tem, devido aos aglomerados de lixo a céu aberto, depositados diariamente por munícipes.

O lixo contamina os solos, impregnando- se nos lençóis freáticos, ameaçando a saúde humana, por ingestão da água potável daí subtraída, bem como os animais que pastam em zonas verdes onde esses canais de água convergem. Para além disso, polui o ar, “o cheiro é nauseabundo”, salientou o docente, sem esquecer que os amontoados de lixo abundantes em Benguela provocam malária, “a primeira causa de morte a nível nacional”, lamentou. Os seus medos relativos ao bem-estar da mãe natureza são agravados pelos hábitos condenáveis observados na orla costeira. A exemplo do Pequeno Brasil, as construções definitivas na areia da praia são inconcebíveis para o ecologista. A erosão na costa benguelense é trágica. Porém, por mais que quem construa com betão armado na praia “não esteja nem aí”, quem licencia essas obras, o Estado, deve mostrar preocupação e consciência, aponta Buaio.

Terra, mar, ar e seres vivos, tudo sob risco

Se a responsabilidade é de todos nós e, apesar de as acções negativas usuais em Benguela, terem consequências no mundo, então, é a partir de Benguela, também, que devemos “mudar o mundo”, defende o ambientalista. Parte da agricultura praticada nesta província da região centro de Angola, segundo análise do especialista em ambiente entrevistado, põe em causa a habilidade natural de recuperação mineral dos solos, porque o pousio é desrespeitado. A sobre exploração dos solos e uso de pesticidas torna-os incapazes de voltar a produzir, inférteis. Uma vez que a diversificação económica passa obrigatoriamente pela agricultura, o ministério deve estar mais atento aos procedimentos exercidos.

O professor universitário João Buaio critica também comportamentos nada cívicos que muitos banhistas têm, ao abandonar os seus resíduos sólidos na areia da praia ou no mar, como garrafas, plástico, ameaçando a biodiversidade marinha. Assim, Buaio alerta não só os menos instruídos nestas matérias, mas também aqueles que fingem que não vêem as consequências das suas acções, pois, no final, o mais afectado é o Homem. Porque, em Benguela, com a pesca irresponsável, extinguindo- se espécies, com o abate furtivo de árvores, sem esforço para se plantarem suficientes, criamos um planeta doente. Depois, não teremos para onde emigrar. Não há outra Terra.

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