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Kool Klever: “Os governantes precisam ouvir mais”

Domingos Bento por Domingos Bento
7 de Abril, 2023
Em Entrevista, Manchete, Política

Kool Klever é das vozes mais autorizadas para falar do activismo social, cultural e politico através das sonoridades da música Rap consciente e de intervenção, como considera. Em entrevista a OPAIS, o artista fala do estado actual da sociedade angolana nos mais varia- dos quadrantes e aponta a música como escape para desaguar as mais acertadas alternativas que podem servir de modelos capazes de resolver os impasses políticos e sociais com a inclusão e participação de todos, desde os líderes aos liderados

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A música que se faz hoje, sobretudo rap, continua a ser um elemento agregador de valores?

Depende muito do artista que seleccionas para ouvir. Mas, de for- ma genérica, a música tem o dom de ser eterna. Enquanto pessoas existirem, a música vai sempre existir. Nós continuamos a ou- vir Michael Jackson, David Zé e outros, mas eles já não existem. E com a musica rap muito mais ainda.

Quais são as razões?

Pelo nível de responsabilidade. No rap acreditamos que os países africanos podem se reerguer com líderes que pensam a África.

Liderança política ou a vários níveis?

A vários níveis, mas sobretudo político.

Porquê?

Porque os líderes africanos de- vem conhecer as vozes e os artistas africanos. Os líderes portugueses conhecem os artistas africanos de intervenção social, mas o líder africano não conhece.

Soa nalgum sentido a ignorância?

Infelizmente.

Por onde passa a inversão deste quadro?

Nós, actualmente, já começa- mos a ter políticos que ouvem a música rap para tentar perceber a mensagem e a preocupação das pessoas que fazem a música.

É o vislumbrar de novos ares nessa relação entre a política e a música?

Talvez. Mas há ainda muitos políticos angolanos que ouvem a música rap para criticar. Para saber quem é contra ou quem é a favor, quando, na verdade, a música de- via ser ouvida para saber da preocupação das pessoas.

Como assim?

Os líderes e as pessoas são africanas, não precisam combater uns contra os outros. E, para mim, é com muita tristeza que olho para as lideranças e os liderados afri- canos e percebe-se que há uma disputa de África contra África.

Até que ponto?

São os líderes africanos que ficam contra a juventude africana e vice-versa.

Qual é a razão deste sentido oposto?

Porque tu percebes que não há sincronia nas ideias. Este é o motivo. Portanto, parece-me que os líderes africanos, que lutaram contra o sistema colonial, acabaram por ser, de certa forma, novos colonos e com o agravante de, em termos políticos e económicos, ainda estarem ligados aos ex-colonos.

E de que forma isso fragiliza os sistemas democráticos?

De todas as formas e das piores porque se percebe que estamos a ser colonizados por quem noutra altura lutou contra os outros opressores.

Este cenário responde, até certa forma, pela produção de constantes contestações e instabilidades em África, provocando guerras civis em grande parte das ex-colónias?

Até certo ponto sim. É que esta forma de neo-colonialismo produz um povo e uma juventude que percebe muita coisa e vai contra. Então, isso é um problema que se precisa ultrapassar.

Como é que se ultrapassa isso?

Pelo diálogo. Mas nós só vamos ter paz e desenvolvimento social e humano quando os líderes que nos deram as independências não serem mais governo.

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