Fevereiro aproxima-se carregando mais do que datas e agendas. Aproxima-se como um tempo de balanço e escolha para a Organização da Mulher Angolana, num país onde ser mulher continua a exigir resistência diária.
Não se trata apenas de um congresso, mas de um reencontro necessário com a razão maior da sua existência. As mulheres que se apresentam como candidatas à liderança da Organização não concorrem apenas a um cargo interno, mas colocam-se diante do tempo, da memória e da esperança de milhares de angolanas que continuam à espera de uma OMA que as veja, as escute e as represente com firmeza.
Cada candidatura carrega um compromisso silencioso com vidas reais, com histórias anónimas e com uma responsabilidade que não cabe em discursos, mas se mede na coerência entre palavra e acção. A OMA é parte da organização partidária que governa Angola e cujo líder foi eleito Presidente da República.
Ao longo da sua história, a força da OMA nunca esteve na obediência cega, mas na capacidade de interpelar o seu próprio partido quando as mulheres eram esquecidas.
A Organização cresceu quando soube incomodar, questionar e exigir, lembrando que nenhuma estratégia política se sustenta se ignora a base social que a legitima, sobretudo, mulheres… As candidatas que hoje se apresentam à disputa interna da OMA carregam percursos distintos, histórias próprias e visões diferentes sobre o futuro da organização. Estão, é verdade, em lados opostos da campanha.
Mas nenhuma delas pode esquecer que partilham uma identidade maior, são mulheres forjadas na luta, no compromisso social e na defesa das causas femininas. A diversidade de propostas não deve ser vista como ameaça, mas como riqueza de um processo democrático saudável. Por isso, o perfil das candidatas importa tanto.
Precisam compreender que uma campanha política responsável exige elevação ética. Não pode haver lugar para chantagens, fofocas ou ataques à vida pessoal. Muito menos para a exposição de segredos partilhados em tempos de confiança, quando ainda não havia adversárias, mas companheiras de caminhada. A política perde sentido quando se afasta dos valores humanos e se transforma em terreno de ressentimentos e acertos de contas.
A maturidade política também se mede pela capacidade de discordar com respeito. É legítimo divergir, confrontar ideias, questionar propostas. O que não é legítimo é tentar destruir reputações ou fragilizar emocionalmente mulheres que sempre estiveram na mesma trincheira da luta. A campanha deve ser um espaço de debate sério, de propostas claras e de visão estratégica para o futuro da OMA.
Angola precisa de mulheres com sensibilidade humana, coragem cívica e autonomia de pensamento. Liderar a OMA exige mais do que fidelidade partidária; exige carácter, escuta e disponibilidade para enfrentar desconfortos em nome do bem colectivo.
Os programas de campanha devem ir além das palavras bem alinhadas. Devem dizer, com clareza, como a OMA pretende agir diante da violência doméstica que persiste em silêncio, do abuso sexual a mulheres e raparigas, do abandono familiar que fragiliza lares, da pobreza feminina que se herda de geração em geração, do desemprego que empurra jovens para a desistência. É aqui que se impõe a pergunta essencial.
A OMA será advogada das mulheres ou juíza distante das suas dores? Falará em nome delas ou apenas sobre elas? Defenderá causas ou limitar-se-á a analisá-las à margem da urgência que a vida impõe? Uma organização de mulheres não pode escolher o conforto do silêncio quando a injustiça se repete. A OMA precisa manter-se como voz activa, mesmo quando essa voz contraria decisões, expõe falhas ou exige mais do que o poder está disposto a conceder.
Quem for eleita, deve reactivar a relação com os Ministérios da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, Interior, Justiça, Institutos Nacionais da Criança, Assuntos Religiosos e a Casa das Leis.
Tem-se instalado a percepção de que responsabilidades próprias do Estado são empurradas para a OMA, como se a militância pudesse substituir políticas públicas estruturadas. A OMA não é, nem deve ser, o órgão protector das mulheres, das raparigas e das famílias. Pode ser parceira, vigilante e força mobilizadora, mas não pode carregar funções que pertencem ao Estado.
Quando isso acontece, enfraquece-se a política pública e sobrecarrega-se a Organização. Um Estado que transfere as suas obrigações perde autoridade moral. E uma OMA que aceita substituir o Estado, corre o risco de se desviar da sua missão estratégica, tornando-se executora do que deveria ser política pública assumida. O congresso de Fevereiro deve servir para redefinir papéis, reafirmar limites e reconstruir parcerias saudáveis.
A OMA precisa recuperar a sua voz própria, clara e firme, sem confusão institucional e sem submissão funcional. É impossível falar do futuro sem convocar a memória da OMA antiga. Não como saudade, mas como referência ética. Houve um tempo em que a Organização resolvia, pressionava, exigia respostas imediatas e não aceitava adiamentos quando estavam em causa famílias em sofrimento. Era uma OMA de proximidade, que conhecia os rostos por trás dos problemas. Sabia que cada processo parado era uma mulher desprotegida, uma criança vulnerável, uma família à beira do colapso.
Nessa OMA, ninguém era deixada para trás. A mulher do musseque caminhava ao lado da mulher do centro urbano, sem hierarquias sociais nem filtros económicos. A solidariedade era prática diária, não discurso ocasional.
A força vinha da entreajuda, da escuta atenta e da acção colectiva. Uma ajudava a outra sem cálculos, sem exposição e sem vaidade. Era uma organização enraizada na comunidade e respeitada pela sua capacidade de resposta. Hoje, Angola precisa reencontrar esse espírito. As candidatas devem dizer, com verdade, se estão dispostas a devolver à OMA essa identidade de exigência, proximidade e compromisso real com as mulheres.
O congresso não pode ser apenas alternância de nomes. Deve ser um reposicionamento político e moral, capaz de alinhar a Organização com os desafios actuais sem romper com os valores que lhe deram legitimidade. É igualmente urgente investir na formação política, cívica e jurídica das militantes.
Uma OMA forte constrói-se com mulheres informadas, conscientes dos seus direitos e capazes de intervir com propriedade nos debates que moldam o país. Modernizar a organização não significa afastá-la das comunidades. Pelo contrário, significa estar ainda mais próxima dos bairros, das comunas, das escolas e dos lugares onde as mulheres enfrentam diariamente os seus maiores desafios. Os meses de Fevereiro e Março deve marcar um ponto de viragem.
As candidatas são chamadas a escolher entre a comodidade institucional e a coragem transformadora. A OMA precisa decidir se quer ser apenas parte da engrenagem do poder ou consciência activa do seu próprio partido. A história observa em silêncio. As mulheres avaliam com a vida. E o futuro não perdoa organizações que se esquecem de quem existem para servir.
É obrigatório lembrar, que a OMA é maior do que qualquer candidatura individual. O objectivo comum não é apenas vencer uma eleição, mas fortalecer a organização, dignificar o seu legado e projectá-la para os desafios do presente e do futuro. Por isso, a vitória de uma não deve ser encarada como a derrota das outras, mas como a vitória colectiva das mulheres que acreditam na OMA como espaço de inclusão, solidariedade e transformação social. Concorrer de forma organizada é, acima de tudo, um acto de responsabilidade histórica.
Significa respeitar regras, aceitar diferenças e reconhecer que, depois da disputa, será preciso caminhar juntas. Porque a OMA não termina no dia da eleição. Ela continua no dia seguinte, com todas, vencedoras e não vencedoras, chamadas a construir, unir e fortalecer uma causa que é maior do que qualquer ambição individual. As mulheres angolanas não esperam perfeição. Esperam presença, coerência e coragem.
Esperam que a OMA volte a ser espaço de protecção, de reivindicação, de construção de soluções concretas e de passagem de testemunho. Que vença a melhor.
Por: YARA SIMÃO









