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Trilogia metafórica no discurso poético de Neto: Nativismo, ebulição e liberdade

Jornal Opais por Jornal Opais
21 de Março, 2024
Em Opinião

A presente abordagem trilógica que abarca o nativismo, a ebulição e a liberdade, na perspectiva acumulativa, são vectores que orientam os objectivos da nossa comunicação que se consubstancia em contextualizar o discurso poético de Neto aos dias de hoje.

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Conforme as revisitas biográficas, adendamos que a sua vida esteve estreitamente articulada entre a poética como arremesso de protesto e a luta constante pelas liberdades que o levou desde muito cedo a embainhar discursos poéticos que dialogassem com a realidade, que propusessem uma nova forma de luta, de actuação, de conscientização e, sobretudo, que elevassem a cultura de pertença e a necessidade revolucionária.

Sustentamos a nossa tese recorrendo a Pierrette e Gérard, em Voz Igual, Ensaio Sobre Agostinho Neto, que nos alerta que “Agostinho Neto foi objecto de numerosas análises que podem ser divididas em duas alíneas diferente: a) (…) que dizem respeito ao homem de acção; b) (…) diz respeito às ligações entre a prática revolucionária e a actividade artística” (sd,p.129,130).

Vejamos que no poema “Depressa”, sinalizam dois dos vectores, ebulição e liberdade, que fundamentam a razão da presente incursão discursiva: “impaciento-me nesta mornez histórica/das esperas e de lentidão/quando apressadamente são assassinados os justos/quando as cadeias abarrotam de jovens/(…) Não esperemos os heróis/sejamos nós os heróis(…) E cantemos numa luta viva e heróica desde já/a independência real da nossa pátria” (Sagrada Esperança, 2009, p.124).

Segundo Kristeva, em História da Linguagem, “a linguagem é simultaneamente o único modo de ser do pensamento, a sua realidade e a sua realização” (1969, pp.19,20).

Por está razão, a trilogia metafórica do discursivo poético em Neto, nativismo, ebulição e liberdade, é a manifestação do pensamento metalinguístico por meio da sociologia da linguagem cujo canal é a poesia.

Por ora, desde que não se confunda com o etnocentrismo, o nativismo entendemos como sendo também a manifestação da cultura de pertença.

Todavia, o professor Francisco Soares apresenta de forma sincrónica, portanto, não anula a perspectiva diacrónica no âmbito da teoria do efeito, o conceito de nativismo como sendo “Movimento do século XIX e começos do século XX que reclamava os direitos culturais, políticos, económicos e sociais dos colonizados” (2007:256).

Por exemplo, “Para quê chorar/ Porque esperamos que outros venham consolar?(…)/ O choro cansou o mundo/ (…)” (Renúncia Impossível, 2009, p.148).

Afirma David Mestre, em Nem Tudo é Poesia, dois mundos distintos marcam Agostinho: “o primeiro com os seus impostos ferozes sobre os camponeses miseráveis, sujeitos à cultura obrigatória do algodão e à escravatura do regime de contrato, o segundo marcado pela vivência da cidade com os seus musseques” (1987,p.25).

Entendemos que tanto o discurso como a poesia de Neto estão impregnadas historicamente às lutas pelas liberdades e sociologicamente às lutas de classes, pois que, as lentes cognitivas de Neto eram de corrente marxista.

Vejamos por exemplo, no poema “Saudação” “(…) Esta mensagem/seja o elo que me ligue ao teu sofrer/ indissoluvelmente/ e te prenda ao meu Ideal/(…) e sinta contigo a vergonha de não ter pão para lhes dar/para que juntos vamos cavar a terra e fazê-la produzir/(…)”(Sagrada Esperança, 2009, pp.73,74).

E segundo Alain Graf, em As Grandes Correntes da Filosofia Antiga “(…) é necessário procurar o que é bom para todos os homens, e não simplesmente o que parece agradável a cada um” (1997, p.13). no poema “Noites de cárcere”, a trilogia metafórica em Neto insurge-se com a realidade por meio de uma retórica transposicional: “(…) Quem dormirá? quando num óbito o tambor chora um cadáver e as raparigas cantam/ há uma cela de chumbo sobre os ombros do nosso irmão/ dikamba dietu”. (Sagrada Esperança, 2009, p.117).

 

Por: hamilton artes

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