Na verdade, com base no título “testemunhos da literatura angolana na luta de libertação nacional de Angola”, nos é permitido inferir que, para nossa conversa de hoje, poderemos concordar com o pensamento de Rita Chaves no qual, “a literatura angolana escrita surge assim não como simples necessidade estética, mas como arma de combate pela afirmação do homem angolano”.
Por certo, a literatura angolana esteve, de facto, sempre em primeira linha de combate pela libertação e pela dignificação do homem angolano. A este pensamento, basta-nos recordar que os primeiros contatos entre os europeus e africanos são datados de 1482 e a ocupação efetiva de Angola teve início em 1884, isto é, na histórica conferência de Berlim. Estes acontecimentos despoletaram o nascimento do nacionalismo.
Assim, o nacionalismo angolano tem as suas origens mais profundas nas lutas entre o povo angolano e o colonizador europeu, lutas estas que vêm desde o século XVI e, por sua vez, transformaram-se e desenvolveram-se noutros campos como o político e literário.
Indubitavelmente, a literatura angolana é, simbolicamente, o testemunho ou sujeito da luta de libertação nacional. Prova disto, em termos de periodização da literatura angolana, na perspectiva do professor doutor Carlos Gonga Pascoal, cronologicamente estabelecem-se seis períodos, desde as origens, o ano de 1848 até 1980 em diante. Entretanto, dos seis períodos, como forma de recorte na nossa abordagem, cingir-nos-emos apenas ao quinto período que, na visão do autor já citado, tem como marco cronológico os anos de 1961 a 1971.
Em termos literários, é marcado por uma literatura enraizadamente nacionalista, com destaque para escritores como Cordeiro da Mata “Delírios”, António Assis Júnior “Segredo da Morta” e José Fontes Pereira “Scenas de África”. Entretanto, o nacionalismo é entendido, na esteira de Isaiah Berlin, como reação face a uma atitude protetora ou injuriosa em relação aos valores tradicionais de uma sociedade […].
Com efeito, vale enfatizar que a literatura angolana é, na sua essência, oral, ou seja, ágrafa. Em Angola, a imprensa foi introduzida apenas em 1845. Assim, ela surge como o primeiro espaço de intervenção através da escrita, que os angola- nos encontraram para denunciar o colonialismo português.
Nes- te ínterim, nos jornais como “Futuro de Angola”, “Pharol do Povo”, “Arauto Africano” e Revista Mensagem, são revelados nessa época claros sinais de descontentamento com a situação econômica e social da colônia de Angola através de várias denúncias de corrupção e de abusos das autoridades coloniais, trazendo à ribalta questões intrínsecas ao nacionalismo.
Deste modo, a luta de libertação nacional é um longo processo que pode ser sintetizado em três fases, acolhendo ao pensamento de Fanon: primeira fase, a de assimilação, o intelectual colonizado assimila e mostra provas da assimilação da cultura do colonizador, uma vez que a sua escrita corresponde aos padrões literários deste espaço dominante.
Na segunda fase, a de protesto, o intelectual assimilado questiona a sua identidade, “ele decide lembrar quem é”, sente-se perturbado, distante do seu povo, tenta resgatar a identidade perdida – no contexto do desenvolvimento literário angolano, a palavra de ordem “Vamos Descobrir Angola 1948” é exemplar desta fase. Podemos afirmar que esta é uma das fases mais produtivas e marca o início da moderna literatura angolana, na perspectiva de estudiosos como Salvato Trigo, Carlos Conga Pascoal e Luís Kandjimbo.
Esta fase é repleta de obras de autores como: Agostinho Neto “Sagrada Esperança”, António Jacinto “Cartas de Um Contratado e Mo- nangamba”, Luandino Vieira “A vida verdadeira de Domingos Xavier”, entre outros. Por outro lado, esta fase sedimentou as bases para o surgimento de verdadeiros mo- vimentos políticos.
A terceira e última fase, a da Revolta, que Fanon entendeu como a “fase da luta”, cuja literatura designou como sendo de “combate”, constitui a fase da ação, em que o intelectual age. Pelo que, a literatura angolana pode-se dizer, surge da reivindicação que, em cada momento histórico, toma contor- nos diferentes.
Portanto, a literatura angolana é o testemunho da luta de libertação nacional de angola e os escritores angolanos, pelos seus conteúdos nativista e intervencionista, revelam-se como testemunhas da história de Angola, que buscam conciliar a herança colonial com a identidade africana/angolana au- têntica. Escritor, Professor, Licenciado no Ensino da Língua Portuguesa pelo ISCED-Huambo e Membro da Brigada Jovem de Literatura-Huambo.
POR: JOÃO BAPTISTA CUNHA









