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OPAÍS

Sinfonia: Relação entre o texto e a imagem na poesia de Agostinho Neto

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
23 de Maio, 2025
Em Opinião

O estudo do texto literário vai além das palavras com que se constroem, o que se espera analisá-lo, também, por meio das imagens e da sua produção em si, não começando tãosomente pela escrita e terminando nela, o que acaba por ser desafiador.

Além disso, o homem vem tendo relação com a natureza na sua plenitude, perpassando pela sua descrição por meio de elementos sociais, culturais, políticos, dentre outros.

Neste âmbito, a presente poesia netiana mostra-nos, com certeza, esta relação existente entre o homem e a natureza. Com base nesta realidade, pretendemos fazer uma análise de pendor qualitativo ligado à relação entre o texto e a imagem na poesia de Agostinho Neto Sinfonia, como forma enriquecedora de análise do texto verbal.

Partindo da 1.ᵃ estrofe a melodia crepitante das palmeiras Lambidas pelo furor duma queimadam, uma palmeira não é apenas uma planta por si só, assim como não é estática. Quando em chama, ela emite um som que se pode transformar em sons melódicos, permitindo que os artistas busquem inspiração em tudo ao seu redor.

A título exemplificativo, em algumas aldeias, comparando com o poema os meninos à volta da fogueira, de Manuel Rui Monteiro, era, ou é, costume as pessoas estarem em torno da fogueira no perído nocturno, ouvindo provérbios, realidades históricas, assim como dançando e cantando, o que representa a sua realidade cultural.

Adentrando para a 2.ᵃ estrofe cor estertor angústia, enquanto a palmeira estiver em chama, a sua cor torna-se vibrante que pode ser, ao mesmo tempo um som específico, como se fosse algo a partir-se, comparado ao som difundido por uma pessoa à beira da morte e a sua angústia com que se transmite.

Deste modo, esta metáfora remete para a situação vivenciada entre o homem e a sua natureza circundante, da qual o sofrimento paira à volta desta sinfonia. No entanto, há esta simbiose entre o facto histórico e o movimento de ser no mundo, o que submete ao patriotismo vinculado à natureza.

Qunato à 3.ᵃ estrofe e a música dos homens, lambidos pelo fogo das batalhas inglórias, apresenta-se, depois de tanta resistência, utilizando a palavra como instrumento de revelação e denúncia, a determinação revolucionária do povo no combate à exploração do homem pelo homem, a voz dos homens que se calam com as lutas, angústias tristeza e fracassos, pois as suas mentes poderiam reflectir num domínio colonial sem fim.

Na 4.ᵃ estrofe sorrisos dor angústia, vemos um povo glorioso que transmite alegria, uma nova realidade, bem diferente da sua opressão e da sua contestação, do seu desespero e da sua falta de esperança de que um dos dias seria livre de toda essa escravatura.

Por meio da 5.ᵃ estrofe e a luta gloriosa do povo, enfatiza-se a batalha desencadeada pelo povo resiliente na construção de uma nação sem o pleno domínio das forças estrangeiras, visando a glorosiosa reconquista da sua amada pátria. Além disso, revela as reais condições do povo dominado pelas normas regidas de obediência e submissão.

Por último, na 6.ᵃ estrofe a música que a minha alma sente, o sujeito poético canta dos momentos vividos em toda fase de resistência e constestação contra o domínio sociocultural, político e religioso por que passava.

Sentia-se a presença de uma voz que manifestava os ecos de um nacionalista. Parafraseando Kandjimbo (2008, p. 96), esta poesia ajuda a fortalecer a decisão de expor as imagens da terra e de retomar, poeticamente, lugares resgatados pela memória, nos quais vários elementos da paisagem africana, cheiros, sons e cores, ajudam a compor a sinfonia adocicada dos coqueirais, marcada por ritmos que, de forma metonímica, aludem à terra.

No entanto, não deve ser de praxe fazer análise dos textos literários apenas comosegmentos do texto construído em palavras, nem permitindo que as imagens inerentes à realidade do sofrimento e da resistência do povo daquela época, para o caso concreto da poesia de Agostinho Neto ora mencionada, fiquem de fora.

Leia mais em

Por: FELICIANO DE CASTRO

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