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Ser originário do Cazenga já foi asqueroso

Jorge Fernandes por Jorge Fernandes
5 de Junho, 2026
Em Opinião
Jorge Fernandes

Jorge Fernandes

Embora tivesse vivência noutras partes de Luanda, a minha principal base sempre foi o Cazenga, local onde fixei residência depois de ter saído do Hospital Materno-Infantil do Kilamba Kiaxi, no Golf, nos idos anos 80. Foi nesse município que fiz toda a minha iniciação escolar, desde o ensino primário até ao ensino de base, passando pela antiga 338-BPV, pela Escola Grande e pela Angola e Cuba.

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Nessa época, e com o país ainda conturbado por causa do conflito armado, foi possível estudar, apesar dos desafios. A educação era a base. Por isso, todo o empenho era direccionado nesse sentido, apesar de vivermos numa zona onde a delinquência era acentuada e os riscos de inclinação para o mundo do crime eram mais do que evidentes.

O município era tido como um dos mais perigosos de Luanda. Por essa razão, antes de existirem escolas do ensino médio no próprio município, muitos dos nossos kotas, depois de concluírem os estudos na Angola e Cuba ou na Escola Grande, tinham como destino escolas da cidade, como o IMEL, o IMIL, o IMNE Garcia Neto, o PUNIV Central ou mesmo a Universidade Agostinho Neto, com as suas diversas faculdades espalhadas pelo centro de Luanda.

Nessas circunstâncias, entre colegas maioritariamente residentes na cidade, quando te apresentasses e dissesses que moravas no Cazenga, o pânico era quase imediato. Embora não representasses qualquer perigo, por causa da má fama do bairro, eras frequentemente conotado como marginal ou pessoa de má índole, tornando-te alvo de bullying.

Para evitar essa humilhação, muitos eram levados a mentir, afirmando que residiam noutras zonas da cidade ou que viviam em casa de familiares. Mesmo assim, o tio podia desconfiar de ti. Mas, enfim, família é família. No entanto, a única forma de conquistares alguma aceitação era destacares-te nos estudos.

Quando os colegas e os professores reconheciam em ti qualidades académicas, quando passavas a ser visto como um verdadeiro barra, eras imediatamente puxado para o lado do “bem”.

Em alguns casos, chegavas até a ser convidado para viver em casa de um colega e passavas a ver o bairro apenas aos fins-de-semana, porque havia quem temesse qualquer pessoa proveniente daquela zona. A busca pela aceitação levava muitos jovens a esforçarem-se ainda mais, procurando não apenas a aprovação dos outros, mas também uma validação interior.

A escola transformava-se, assim, num verdadeiro campo de batalha, onde cada boa nota, cada elogio e cada participação em actividades lúdicas, teatro, dança, recreação ou desporto representavam vitórias capazes de alterar a percepção que os outros tinham de nós.E assim foi durante muitos anos.

Alguns, receando não serem aceites no bairro de origem, evitavam até colocar lá os pés e, quando questionados sobre a sua proveniência, respondiam prontamente: Maianga, São Paulo, Alvalade, Kinaxixi, enfim, os bairros nobres. Na realidade, porém, as suas raízes permaneciam na periferia, onde familiares e amigos torciam pelo seu sucesso, muitas vezes acompanhando-o através de uma televisão a cores.

Com o passar do tempo, percebemos que muitas figuras da chamada ribalta vieram exactamente desse contexto. Os nomes são vários. As posições sociais são amplamente conhecidas. Mas o que fazem pelo engrandecimento do bairro? Nada.

Tudo porque a “paixão e compromisso”, slogan adoptado pela administração municipal, toca-os de caxexe. Contudo, são de lá. Não nos envergonhemos disso. O Zengá é nosso. Façamos o que estiver ao nosso alcance pelo bem do nosso povo, porque já passou o tempo em que ser do Cazenga era motivo de vergonha ou algo considerado asqueroso.

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