Durante grande parte da minha infância, beber água da torneira era uma coisa absolutamente normal. Não havia grande cerimónia. Abríamos a torneira, enchíamos o copo e bebíamos. Enchíamos as garrafas e colocavámos na geleira, para beber água gelada. Era assim em casa, era assim em muitos lugares por onde passávamos e, durante bastante tempo, nem sequer nos ocorria pensar que pudesse existir alguma coisa de extraordinário nisso. A água estava ali.
Fazia parte da casa. Fazia parte da vida. Hoje, na realidade de Luanda, a história é bem diferente. Beber água directamente da tor- neira tornou-se, para muitas famílias, uma coisa praticamente impensável. A maioria das pessoas compra água para beber. Uns compram água engarrafada, outros compram água de mesa ou mineral e há ainda quem recorra às casas que vendem água tratada, o novo grande negócio do momento. PUB E não estou a dizer que haja alguma coisa de errado com quem vende água. Muito pelo contrário. É uma actividade económica como tantas outras, cria empregos, movimenta dinheiro, gera negócios e resolve uma necessidade real de milhares de pessoas.
O que me faz pensar é outra coisa. Quando uma sociedade passa a precisar de comprar aquilo que antes conseguia obter directamente em casa, será que não perdemos alguma coisa pelo caminho? Esses dias visitei uma cidade on- de ainda se bebe água da torneira. Confesso que fiquei surpreendido com a simplicidade da coisa. A pessoa chega a casa, abre a torneira, enche o copo e bebe. Ou ainda, enche as garrafas e coloca na geleira para beber mais tarde. Só isso. E foi precisamente nesse gesto tão banal que senti uma espécie de saudade.
Uma saudade da minha infância. Uma saudade de uma Luanda em que beber água da torneira não era uma decisão que exigia tanta relexão. É curioso como a vida funciona. Quando temos uma coisa todos os dias, dificilmente percebemos o seu valor. Só começamos a sentir falta quando ela deixa de estar disponível da mesma maneira. É como abrir a torneira e descobrir que a água não serve para beber. Então compramos água. Para beber. Compramos outra para cozinhar, em algumas casas. Guardamos garrafas, controlamos o stock, calculamos quanto falta, preocupamo-nos com a qualidade. E aquilo que era simplesmen- te água passa a ser mais uma coisa para planear, comprar, transportar e pagar. A questão, para mim, vai muito além da água. Tem a ver com qualidade de vida.
Qualidade de vida não é apenas ter um carro melhor, uma casa maior, um telemóvel mais moderno ou poder frequentar restaurantes mais caros. Há coisas muito mais básicas que, quando funcionam bem, quase nem percebemos que são um privilégio. Abrir a torneira e beber. Andar numa rua e não precisar de desviar-nos de buracos. Sair de casa e encontrar transporte disponível. Ter energia eléctrica de forma previsível. Conseguir chegar ao hospital quando precisamos. Ter uma escola próxima para os nossos filhos. São coisas tão básicas que, quando funcionam, tornam-se invisíveis. Quando deixam de funcionar, percebemos o quanto dependíamos delas. Por isso aquela água da torneira numa cidade que visitei me provocou tanta nostalgia.
Não era apenas água. Era a lembrança de uma época em que algumas necessidades fundamentais simplesmente faziam parte do quotidiano. Hoje pagamos por aquilo que antes estava disponível de outra forma. E isso também tem um custo que nem sempre aparece na factura. Há o dinheiro gasto na compra da água, naturalmente. Mas há também o tempo de procurar, transportar, armazenar e garantir que não falta. Uma família que compra água todos os dias precisa de incluir essa despesa no orçamento.
Uma empresa precisa de garantir água para os funcionários. Um restaurante precisa de assegurar água para clientes e trabalhadores. Uma escola precisa de pensar no abastecimento. Multipliquemos isso por milhares de casas, empresas, escolas e instituições e percebemos que já não estamos apenas a falar de uma garrafa de água. Estamos a falar de uma parte da economia e, sobretudo, de uma parte da nossa rotina. E há uma coisa que me parece ainda mais importante. Quando aquilo que deveria ser básico deixa de ser garantido, começamos a adaptar-nos. As crianças crescem a achar normal comprar água. Os jovens já nem imaginam outra realidade. E, pouco a pouco, aquilo que para uma geração era uma perda passa a ser simplesmente o novo normal para a seguinte.
O que estamos a aceitar hoje como normal que, daqui a vinte anos, os nossos filhos poderão perguntar como chegámos a este ponto? Não digo isto para idealizar o passado. Também havia problemas. A água nem sempre chegava onde devia, nem sempre tinha a qualidade desejada e a realidade de Luanda sempre teve os seus desafios. Mas há uma diferença entre reconhecer os problemas e aceitar que algumas coisas simplesmente não podem melhorar. Precisamos de continuar a querer mais. Precisamos de querer cidades onde aquilo que é básico funcione de forma digna e previsível. Porque quando uma pessoa consegue beber água da torneira sem medo, não está apenas a poupar o dinheiro da garrafa. Está a ganhar tempo, tranquilida- de e liberdade.
E se calhar seja essa a palavra que melhor explica aquilo que senti na- quela cidade. Liberdade. A liberdade de chegar a casa com sede, abrir a torneira e beber água. Sem pensar muito, sem precisar de perguntar de onde veio, onde foi tratada ou se será segura. Parece pouco. Mas não é. Há coisas que só percebemos que têm valor quando deixamos de as ter. Eu saí daquela cidade com uma pequena saudade da Luanda da minha infância. E fiquei também com uma esperança.
A esperança de que algumas coisas que hoje consideramos difíceis possam um dia voltar a ser simples. Porque, no fundo, progresso não deveria significar apenas ter mais coisas. Também deveria significar poder voltar a confiar nas coisas básicas. E se um dia voltarmos a abrir uma torneira em Luanda, enchermos um copo e bebermos água com tranquilidade, talvez nem façamos uma festa. Talvez simplesmente bebamos. E sigamos a nossa vida. Mas, para quem se lembra de como era, aquele gesto simples po- derá significar muito mais do que parece.
POR: LÍDIO CÂNDIDO “VALDY”












