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Preconceito Linguístico Invertido: O que é? Como se faz?

Jornal Opais por Jornal Opais
16 de Janeiro, 2024
Em Opinião

No seu livro Preconceito Linguístico: O que é? Como se faz? o renomado linguista Marcos Bagno busca derrubar o que ele mesmo chama de mito de que <<o domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social>>. Para ele, é falsa a ideia segundo a qual a norma culta da língua garante ascensão social e serve-se de inúmeras explicações para (tentar) provar a sua tese.

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Na página 69, por exemplo, lê-se: <<Ora, se o domínio da norma culta fosse realmente um instrumento de ascensão na sociedade, os professores de português ocupariam o topo da pirâmide social, económica e política do país, não é mesmo?>>. Para Bagno, portanto, a norma culta escrita não garante ascensão social e aponta outros factores que, no seu entender, cumprem com esse papel: <<Por outro lado, um grande fazendeiro que tenha apenas alguns poucos anos de estudo primário, mas que seja dono de milhares de cabeças de gado, de indústrias agrícolas e detentor de grande influência política em sua região vai poder falar à vontade sua língua de “caipira”, com todas as formas sintáticas consideradas “erradas” pela gramática tradicional, porque ninguém vai se atrever a corrigir seu modo de falar>>.

Na página 70, o linguista brasileiro vai mais longe, afirmando que <<o domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa […] que não tenha casa decente para morar, água encanada, luz elétrica e rede de esgoto. O domínio da norma culta de nada vai servir a uma pessoa que não tenha acesso às tecnologias modernas, aos avanços da medicina, aos empregos bem remunerados, à participação ativa e consciente nas decisões políticas que afetam sua vida e a de seus concidadãos.

O domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha seus direitos de cidadão reconhecidos plenamente, a uma pessoa que viva numa zona rural[…]>>. Até aqui, fica mais ou menos evidente a visão de Bagno a respeito da norma culta escrita e do seu ensino nas escolas. Porém, o que também ficou evidente para nós é o apelo emocional que constante- mente ele dirige aos seus leitores, fazendo referência à má governação (?) de políticos brasileiros (provavelmente) não esquerdistas. Ora, essa é uma postura que nos parece incorrecta, pois fica difícil perceber qual fenómeno o autor quer analisar de facto, visto que coloca todos os “problemas” num único recipiente.

É certo que uma análise linguística também implica olhar para fenómenos políticas, mas, sob pena de comprometer os resultados da pesquisa, o investigador precisa de assumir uma postura neutra em relação ao fenómeno (linguístico, cultural, social, etc.) que analisa e ser o mais transparente possível. O que se disse acima fica mais evidente quando se lê, na página 71, a seguinte pergunta: <<Vale- rá mesmo a pena promover a “ascensão social” para que alguém se enquadre dentro desta sociedade em que vivemos, tal como ela se apresenta hoje?>>.

Aqui, Bagno sugere que, pelo caos social que se verifica, é bom que não se promova a ascensão social, esquecendo- se de que não cabe à norma culta (nem a escrita, nem a oral) orientar a acção ético-moral dos indivíduos. Ou ele está, outra vez, a misturar os assuntos para forçar apelo emocional? E ainda diz que o <<domínio da norma culta de nada vai servir a uma pessoa que não tenha acesso […] aos empregos bem remunerados, à participação ativa e consciente nas decisões políticas que afetam sua vida e a de seus concidadãos>>, como se um dos itens mencionados aí fosse o objectivo da norma culta.

Seria bom se Bagno dissesse qual gramático afirma que a aprendizagem da norma culta faz com que o indivíduo tenha, só por dominá-la, empregos bem remunerados, por exemplo. Do contrário, as suas afirmações só servirão de disfarce ideológico que se aproveita da ciência para pregar interesses próprios, políticos. Ademais, quem lhe disse que ascensão social consiste apenas em ocupar <<o topo da pirâmide social, económica e política do país>>? Os que ganham a vida como faxineiros, os cidadãos que varrem as ruas, etc., não ascenderam? Há mais: diz que <<o domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha seus direitos de cidadão reconhecidos plenamente>>, esquecendo-se de que negar a quem quer que seja o direito de aprender uma norma linguística é também um acto de injustiça social e uma forma de perpetuar as desigualdades.

Assim, não nos parece sensato deixar de promover a ascensão social por via do ensino da norma culta ou por outra via. Precisamos de melhorar as metodologias de ensino e criar políticas educativas mais inclusivas. E não é culpa da norma culta (escrita ou oral) que a riqueza de um país esteja toda estagnada nas mãos duma minoria: é da incompetência de líderes autocratas, corruptos. Portanto, é errado utilizar a norma para mostrar descontentamento pelos erros de um gestor público. Há evidências de que a norma gramatical é um excelente trampolim nas relações humanas e na conquista de empregos, todavia não é o único e nem sempre é o mais eficiente. Fim?

POR: FAMOROSO JOSÉ

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