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Por que o ódio pela Língua Portuguesa?

Jornal Opais por Jornal Opais
19 de Fevereiro, 2025
Em Opinião

Boa tarde, queridos! Passei pela cantina da instituição. Ao entrar na secretaria geral, percebi que, do lado direito, havia um espaço onde, no intervalo, os alunos se reuniam para compartilhar novidades sobre as aulas.

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Naquele grupo, no entanto, havia duas pessoas que faziam insinuações sobre certas disciplinas serem melhores que outras. Pelo que diziam e pela forma como falavam, parecia que o único critério que utilizavam era a preferência pelos professores.

Um deles, num tom exaltado, exclamou em voz alta: «Eu sou inteligente, mas a disciplina que não gosto, odeio e me faz tirar notas baixas é só português mesmo!» Em seguida, acrescentou, com o apoio dos colegas: «É verdade, aquele professor é péssimo, provavelmente não sabe dar aulas.» Que professor? Como esses jovens avaliam o que é uma boa ou má aula? Como o professor era e que métodos utilizava? — perguntava-me a mim mesmo, intrigado.

Sentado na sala dos professores, à espera do meu contracto de trabalho, sentia o coração acelerado, mas não era sangue que bombeava, e sim um frio que percorria a minha espinha, fazendo os meus joelhos tremerem de medo ao pensar em enfrentar um grupo que claramente não gostava de português.

Por um instante, tentei tranquilizar-me: «Por que me preocupar? Provavelmente não são da turma em que vou leccionar!» Minutos depois, no entanto, o subdirector pedagógico chamou-me à sua sala e entregou-me os horários. Em seguida, pediu ao chefe de turno que me acompanhasse para conhecer as turmas. Coincidentemente, a primeira aula do dia seria justamente na sala dos alunos que eu tanto temia.

O meu coração voltou a acelerar. Mas, enfim, não havia outra solução a não ser enfrentar a situação e trabalhar. — Boa tarde, queridos alunos! — cumprimentei-os. Levantaram-se e responderam unissonamente: — Boa tarde, senhor professor! Comecei a apresentar-me e pedi que se apresentassem também. Enquanto alguns se apresentavam, outros já começavam a agir de forma desrespeitosa. Ignorei.

Ao terminar a actividade, orientei que todos fossem para casa. Para minha surpresa, a turma inteira aplaudiu-me. Um ponto a destacar: esses alunos não gostam de assistir às aulas, especialmente as de português.

Anotei isso na minha agenda. No dia seguinte, realizámos uma discussão minuciosa para entender por que quase toda a turma odiava português. Cada aluno, ao responder às perguntas que lhes eram feitas, compartilhou as suas experiências desde a sétima até à nona classe.

Durante o diálogo, ouvi murmúrios: «Como assim este professor está a pedir a nossa opinião?» Um deles respondeu: «Se fosse aquele professor, duvido que faria isso.» Não liguei e continuei, pois percebi que o problema não estava na disciplina em si, mas no professor, nas metodologias e nos recursos que utilizava.

Para não tirar conclusões precipitadas, perguntei ao director pedagógico por que o professor anterior havia sido demitido e também conversei com outros colegas da disciplina.

Assim, descobri o que precisava. Embora o professor anterior fosse muito criticado, aquela turma, em particular, dificultava o trabalho de qualquer professor de português.

Desde que o primeiro professor de português da sétima classe foi substituído, todos os outros que leccionaram naquela sala fracassaram. — Quem era esse professor tão querido por eles? — perguntei à colega Mariana. — Aquele ali, no fundo, a conversar com o professor de geografia — respondeu ela. Virei-me 360 graus, fixei o meu olhar nele e concluí: «Eles têm razão.» Encerrei a conversa e fui embora.

No terceiro dia, devidamente preparado para a aula, pedi que fizessem um resumo básico da aula anterior. Eles relutaram, até que o Marcos se levantou e começou a explicar. Mal havia pronunciado duas frases, os colegas começaram a rir-se dele.

Imediatamente, tive de intervir: — Parem! Qual é a graça, queridos? — perguntei, olhando para os três que riam: Maria, Joanito e Miro. — Professor, este colega sabe que fala mal, mas ainda se atreve a levantar-se para falar — respondeu Joanito, com um tom de deboche. — Diga-me: se ninguém se levantar para falar, quem o fará? — retorqui. E l e s e n t r e o l h a – ram-se, sem resposta. — Senta-te, Marcos — orientei. — Vocês dizem que ele fala mal, mas esquecem-se de que é o único que tem coragem de se levantar e tentar.

Ele quer aprender e é destemido. — Professor, o que é “destemido”? — perguntou um deles, interrompendo-me. — Responde tu — disse eu, apontando para o Miro. — Levanta-te. Não precisas de usar o dicionário.

Basta inserir o nome do Marcos na frase e repetiremos juntos três vezes até entenderem o significado. Vamos lá: «O Marcos é destemido» (3x). Mal terminámos a terceira repetição, um grupo gritou, incluindo o aluno que havia perguntado: — Já sabemos, professor! Significa “sem medo”. — Exactamente! — confirmei, pedindo que o Miro se sentasse.

A partir daquele momento, comecei a conscientizá-los sobre a importância do respeito mútuo, da valorização do aprendizado e da necessidade de abandonar comportamentos de superioridade.

Um mês depois, a nossa sala deixou de ser um campo de batalha e transformou-se num espaço de troca de ideias. Joanito abriu-se comigo, confessando que, além do professor da sétima classe, todos os outros que vieram depois só os faziam sentir que não sabiam falar português. «Passavam o tempo todo a corrigir-nos, mesmo quando os colegas riam.

Ditavam textos e mandavam copiar montes de fascículos. As aulas eram irritantes, cansativas e desgastantes.» Quando ele terminou, não comentei nada sobre o professor anterior, respeitando-o profissionalmente. Apenas disse: — Está bem. Desta vez faremos diferente, ok?

 

Por: GABRIEL TOMÁS CHINANGA 

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