Todos os artigos e aná lises económicas e financeiras que estão a ser pensados e vertidos no papel (ou na internet) estão hoje eivados de uma carga enorme de geopolítica, pois a situação geopolítica atual trouxe tudo aqui lo que os mercados financeiros mais odeiam, a incerteza. O mais grave é que a incerteza não vem só; ela hoje tem o lastro de permanência, ou seja, hoje os mercados enfrentam uma “incerteza permanente”, oscilando às custas de declarações repentinas de Donald Trump ou de uma voz invisível da Guarda Revolucionária do Irão.
Não acreditamos que o objetivo desta guerra era o que se rá abordado neste artigo, mas a verdade é que a campanha mi litar contra o Irão ofereceu de bandeja um trunfo sem tamanho ao Irão, pois todo mundo já percebeu que os preços da energia mundial, fertilizantes, bens e serviços e um condicionamento brutal do comércio internacional passaram a estar à mercê das vontades do Governo do Irão, que hoje é um Governo sem rosto, mas dono de uma tenacidade incrível, que até assusta o Ocidente e to dos os que o tentam enfrentar.
E o que preocupa mais os mercados internacionais é que este governo do Irão é de facto mais duro e mais determinado do que o anterior. Não nos deve mos esquecer que logo nos primeiros 3 dias de guerra foi mor to Ali Khamenei (líder iraniano) e vários outros membros do governo, na esperança de que aquele país perdesse o norte e acontecesse uma alteração na liderança, a favor de um novo governo pró-Estados Unidos da América (EUA) e Ocidente.
Mas o que vimos foi totalmente o oposto: estas novas lideranças, além de acharem que chegou a sua vez de governar, querem mostrar trabalho e vão fazer tudo para manter o sistema vigente. São muito mais duras, agressivas e determinadas do que os “mais velhos”.
Estes novos líderes, ao contrário dos anteriores, não ameaçaram fechar o estreito de Ormuz; eles fecharam mesmo. Não ameaçaram atacar os países vizinhos ligados aos EUA; eles atacaram mesmo as bases e todos os interesses americanos na região.
Portanto, temos aqui marcadamente uma grande diferença entre o antes e depois da guerra, e uma nova realidade para a região do Golfo Pérsico, porque já se percebeu que um Irão de costas viradas com os vizinhos projeta a instabilidade para toda a região do Oriente Médio, e não nos esqueçamos que por aquela via circulam mais de 20% da produção petrolífera mundial, mais de 25% do fornecimento do gás liquefeito mundial e mais de 30% dos fertilizantes que o mundo precisa para produzir.
Em termos gerais, estes números bem redondos que afetam os bolsos das empresas e famílias no mundo estão hoje literalmente “nas mãos” do Irão; esse foi o presente que Donald Trump deu ao Irão.
Na prática, hoje o Irão tem muito mais influência no bem-estar mundial do que muitos países ou uniões de países. Para afetar o comércio internacional e as economias como um todo, o Irão tem algo muito mais precioso do que um exército extrema mente, ou aviões e porta-aviões de última geração. O Irão hoje constitui a centralidade das decisões mais importantes para ditar as tendências dos mercados financeiros.
Se Donald Trump tentou impedir o Irão de ter uma bomba nuclear, hoje o Irão tem algo muito mais poderoso do que isso: tem a chave da normalidade e previsibilidade dos mercados financeiros, pois, enquanto os EUA não cederem às pressões do Irão, os navios que vão circular naquela área serão os que o Irão permitir, ou seja, os seus aliados.
E, do outro lado, para complicar mais o processo, asseguradoras vão cobrar prêmios astronômicos a todos aqueles navios que tentarem cruzar o estreito sem o beneplácito do Irão.
O Irão já está a cobrar taxas para quem passa pelo estreito; isso era algo impensável há uns meses atrás, e já aventaram que é com estas receitas que vão financiar a reconstrução das suas cidades e das capacidades militares.
Não é por acaso que a China já está a fornecer novas capacidades de defesa antiaérea ao Irão neste período de cessar-fogo, sendo que, por outro lado, o Irão dei xa passar todos os navios chineses e aqueles vão para a China.
Contudo, as últimas medidas de Donald Trump, de colocar um bloqueio em cima de outro bloqueio, por pura incapacidade de travar o Irão na sua prática de condicionar o estreito de Ormuz, parecem ser uma jogada bem orquestrada de Donald Trump que visa desviar as aquisições de petróleo do Médio Oriente para os EUA, pois estes são os maiores produtores de petróleo no mundo, com uma produção diária de 12,5 a 13,5 milhões de barris/dia, o que no fim do dia só beneficiaria a sua economia e os seus financiadores de campanha.
Mas se a estratégia é esta, os EUA estão a abandonar os seus aliados de longa data do Oriente Médio. Os mesmos compram capacidades militares aos EUA e pagam rios de dinheiro para sua defesa.
Por outro lado, esta estratégia está a dilacerar as economias europeias que sempre foram aliadas dos EUA, pois já se cogita que, para 2026, o limite de déficit do pacto de estabilidade (de um país não de ver ultrapassar 3% do seu Produto Interno Bruto em termos de déficit público) deve ser posto de lado, porque as economias europeias devem derrapar “a grande e a francesa”, porque os preços da energia vão continuar altos este ano.
Na prática, podemos concluir que as intenções iniciais de Donald Trump devem ter si do bem diferentes do cenário atual, porque, na prática, ofereceu de bandeja ao Irão algo mais valioso do que uma bomba atómica, mas, como bom homem de negócios que é, e mesmo sendo presidente dos EUA, continua a pensar desta for ma. Foi muito diligente, mesmo na desgraça de milhões de pessoas no mundo inteiro, em fazer dinheiro e dar vantagens aos que estão do seu lado.
Claramente, já se percebeu que Donald Trump encontrou alguma forma de lucrar com os seus próprios falhanços, e esta ideia de, com uma mão, manter fechado o estreito de Ormuz e, com outra mão, oferecer o petróleo americano é uma jogada de mestre, e que sirva de lição para todos aqueles que acham que Donald Trump fala por falar ou que não parece ter noção do que diz, pois, no fim do dia, os países que ele não gosta ficam com a parte podre do conflito, mas os seus aliados ficam com os espólios.
Por: RUI MALAQUIAS








