Entrementes, uma gramática não pretende nem é capaz de esgotar a descrição da língua, a gramaticografia é, de facto, indissociável da noção de norma. Desta maneira, partimos do pressuposto de que a noção de norma se bifurca entre o campo da normalidade e o da normatividade. Assim, o primeiro se refere aos usos habituais da língua; já o segundo, as idealizações prescritivas para sua padronização.
No mais, embora as discussões sobre norma, nos estudos sociolinguísticos clássicos, estejam centradas na comunidade de fala, e na escrita que elas se materializam. Qual seria a visão estratégica do professor diante das linhagens gramaticográficas no ensino do português? Adiantando a resposta deste questionamento, na perspectiva de Swiggers etal. (2020) “historiografia da gramaticografia é definida como a escrita da história da técnica de com por gramáticas, ou seja, do acto de produzi-las”.
Na gramaticologia no dizer de Vieira (2020) apresenta objectivos de pesquisa em forma de categorias de análise: os eixos da norma-padrão e da análise metalinguística. Conforme o autor citado, o eixo da norma-padrão é o que faz a gramática tradicional, entre especialistas ou não, ser reconhecida também pelos nomes “gramática normativa” ou “gramática prescritiva”.
Com efeito, trata-se do campo da escrita e da fala “corretas”. Como se pode ver, compreende a ortografia e as regras de acentuação gráfica, a ortoépia e a prosódia “elegante”, as flexões nominais e verbais, os paradigmas pronominais, a concordância, a regência e a colocação consideradas possíveis, as estruturas relativas padronizadas, o uso do acento indicativo de crase, as convenções de pontuação, entre outras regras e convenções próprias da escrita normatizada e da fala supostamente de prestígio.
Entretanto, já o eixo da análise metalinguística equivale ao domínio das técnicas de descrição (e eventualmente explicação) das estruturas ortográficas/fonético-fonológicas, morfológicas e sintáticas da língua.
Nesse sentido, a partir de um olhar retrospectivo e panorâmico para a natureza epistemológica da gramatização massiva das línguas europeias modernas, Faraco e Vieira (2021) identificam a existência de três linhagens gramaticográficas específicas: a linhagem latiniza da, a linhagem racionalista e a linhagem empirista.
De acordo com esses autores, as gramáticas da linhagem latiniza da se caracterizam pela vinculação explícita às gramáticas latinas, do ponto de vista retórico, analítico e normativo. Há, nessas obras, um espelhamento estrutural entre o latim e a língua moderna gramatizada. Predominante na gramaticografia de língua portuguesa até o final do século XVII, a linhagem latinizada também direcionou o ensino de português sobre tudo por meio da Arte da grammatica da língua portuguesa (1770), de António José dos Reis Lobato (1721 1804).
Por: JOÃO BAPTISTA CUNHA








