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OPAÍS

O drama da indiferença

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
25 de Agosto, 2025
Em Opinião

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Com esta epígrafe, José Saramago abre o Ensaio sobre a cegueira (1995). A aparente simplicidade da frase, atribuída a um fictício Livro dos Conselhos, condensa um imperativo ético fundamental: transformar o mero olhar em atenção que repara, isto é, em cuidado, em resposta, em compromisso. Não basta ter olhos, é preciso ver de forma crítica e consciente. Muitos olham, mas não veem; e muitos veem, mas não reparam. É nesse desfasamento que floresce a apatia colectiva, quando cada um só cuida de si e a comunidade implode.

A indiferença é talvez o mais silencioso dos dramas humanos. Instala-se sem alarde, mas carrega o peso de todas as omissões que permitem à injustiça florescer. Elie Wiesel, sobrevivente de Auschwitz, cristalizou esta intuição ao afirmar: “O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença”.

O ódio ainda reconhece o outro como presença, mas a indiferença reduz o outro à inexistência. A sua dor não era apenas pela violência sofrida, mas pelo silêncio cúmplice de um mundo que, diante dos campos de extermínio, escolheu não agir. Em qualquer sociedade, inclusive a nossa, a indiferença normaliza desigualdades, invisibiliza sofrimentos e torna o escândalo paisagem. A ética que aqui se propõe é, portanto, prática: ver e reparar.

Isto significa, concretamente, escutar antes de etiquetar; aproximar-se antes de julgar; transformar informação em cuidado. É também institucional: criar rotinas que protejam os vulneráveis mesmo quando não há câmaras; educar para a responsabilidade partilhada; cultivar uma cultura pública onde o silêncio dos “bons” não seja confortável. O provérbio Ubuntu ensina: “Eu sou porque nós somos.”

Esta máxima recorda-nos que a dignidade de cada pessoa é inseparável da dignidade da comunidade. A indiferença, portanto, é a negação do Ubuntu: recusa da humanidade partilhada, corte dos laços que sustentam a vida colectiva.

Os congoleses dizem: Mabe ya moninga, mabe na yo, que significa “a desgraça do vizinho é também a tua desgraça” (Kalonji, 1997). Na tradição ambundo em Angola, afirma-se: Omu kwata k’ôlu, okuti okufa, isto é, “quem não partilha o fogo, morre de frio” (Redinha, 1984). Estas vozes, oriundas de diferentes tradições, convergem numa verdade antiga e sempre actual: a indiferença nunca é neutra. É cumplicidade. É colaboração silenciosa com a injustiça. Hannah Arendt (1963), ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, falou da “banalidade do mal”.

Não é necessário ser monstro para colaborar com a injustiça; basta ser indiferente, cumprir ordens, desviar o olhar. Estas vozes, de tempos e geografias distintos, encontram-se num mesmo diagnóstico: a indiferença é a mais subtil e a mais letal das violências.

Ela transforma o humano em espectador do inumano. Filosoficamente, esta banalização da injustiça confronta-nos com uma pergunta inquietante: até que ponto não somos nós próprios cúmplices dessa violência silenciosa? Como lembrava Emmanuel Lévinas, o rosto do outro é sempre um apelo ético que me obriga; ignorar esse rosto não é apenas ser indiferente, é tornar-me responsável pela exclusão do outro.

Mas como se traduz a indiferença na vida concrecta? Manifesta-se quando aceitamos desigualdades gritantes como se fossem destino, quando diante da violência preferimos “não nos meter”, quando calamos perante o racismo, o tribalismo ou a exclusão social. Está também nos pequenos gestos quotidianos que desumanizam: ao passarmos por uma criança a pedir esmola como se fosse parte natural da paisagem, ao desviarmos o olhar de um idoso abandonado ou de um doente mental a vaguear pelas ruas, ao normalizarmos famílias sem água potável.

Estas indiferenças, repetidas dia após dia, já não nos ferem; e é precisamente aí que reside o perigo: o mal, banalizado, torna-se rotina. A indiferença, assim entendida, não é simples ausência de afecto; é uma disposição ontológica, um modo de estar no mundo que empobrece a relação com a alteridade. É a imobilidade do cuidado, o enfraquecimento do pathos que sustenta os vínculos. Indiferente é quem abdica de reconhecer no outro um apelo que o convoca.

Essa abdicação tem raízes históricas. Dante Alighieri, séculos antes, na Divina Comédia, colocou os indiferentes no vestíbulo do Inferno: não eram dignos nem do Céu nem do próprio Inferno, porque não escolheram lado, viveram na tibieza moral.

A sua pena não era o fogo, mas o turbilhão estéril de um sempre-assim: zumbidos, poeiras, ferrões. A imagem é forte: a indiferença não chega ao trágico, é ruído sem música, fadiga sem drama, vida que não chega a viver. É também neste sentido que filósofos contemporâneos como Zygmunt Bauman alertam para a “modernidade líquida”, onde relações e responsabilidades se dissolvem rapidamente, deixando espaço para uma indiferença social difusa.

A sociedade transforma o sofrimento do outro em espetáculo mediático, consumido na televisão ou nas redes sociais, mas raramente convertido em compromisso. O excesso de imagens de guerra, fome e miséria, em vez de mobilizar, tende a anestesiar.E quando deslocamos esta reflexão para África, e de modo particular para Angola? Quantas vezes não passamos por crianças a comer nos contentores de lixo sem sequer voltar o olhar? Quantas vezes não assistimos às mortes em massa no Congo, aos deslocados do Sudão, às fomes cíclicas no Corno de África, e tudo nos parece notícia distante, sem rosto e sem nome? Quantas vezes, em Luanda, cruzamos com famílias inteiras a viver nas ruas, crianças que nascem já condenadas a um não-futuro, e escolhemos virar o rosto, como se a miséria fosse fenómeno natural e não produto humano? O drama da indiferença é, afinal, o drama da humanidade que, podendo ser solidária, escolhe a apatia.

É o drama de sociedades que, podendo afirmar a vida, escolhem conviver com a morte em vida dos seus irmãos. Contra a indiferença, só nos resta a solidariedade activa. Só nos resta reparar, cuidar e agir. Porque, no fim, a única neutralidade possível é a da morte. A vida exige compromisso. Como lembrou Martin Luther King, a indiferença dos justos é o cimento invisível que sustenta a arquitectura da opressão.

Por: CARLOS PIMENTEL LOPES

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