O conflito no Médio Oriente, com o envolvimento dos EUA e Israel contra o Irão, veio recordar-nos, de forma dramática, a fragilidade das cadeias globais de abaste cimento de energia e materiais estratégicos.
A disrupção no Estreito de Ormuz não afectou apenas o petróleo e o gás natural: provocou escassez de alumínio, hélio, enxofre e outros insumos essenciais. Os preços do Brent dispararam, atingindo picos acima dos 109-112 dólares por bar ril em Março e Abril de 2026.
O mundo acelerou a busca por fontes alternativas, estáveis e diversificadas de minerais críticos aqueles indispensáveis aos ímanes de motores eléctricos, turbinas eólicas, baterias, redes eléctricas e tecnologias de defesa.
Como economista, vejo aqui não uma ameaça, mas uma janela de oportunidade histórica para Angola. O nosso país possui um dos portfólios geológicos mais promissores de África, com depósitos identificados de lítio, cobre, quartzo, cobalto, manganês, urânio, minério de ferro e terras raras, entre outros minerais críticos essenciais à transição energética global.
A este potencial acrescenta-se uma estabilidade institucional relativa e infraestruturas logísticas em expansão. Invés de exportar apenas matéria-prima bruta, como no passado, podemos e de vemos posicionar-nos como parceiro confiável na cadeia global da transição energética, gerando empregos qualificados, receitas fiscais sustentáveis e desenvolvi mento industrial inclusivo. Os dados recentes são animadores.
O projecto Longonjo, da em presa multinacional britânica Pensana, no Huambo, avança a bom ritmo: a construção está no caminho certo para a produção inicial em 2027, com capacidade inicial de 20.000 toneladas anuais de carbonato misto de terras raras (MREC), das quais 2.400 toneladas correspondem ao neodímio-praseodímio (NdPr) e 73 toneladas a metais pesados de magnetos.
O projecto beneficia de energia hi droeléctrica limpa e de baixo custo proveniente da barragem de Laú ca (2.070 MW), integrada na rede nacional e já estendida até à região da Caála, a cerca de 45 km a leste de Longonjo.
Está ligado ao Corre dor do Lobito, infraestrutura estratégica que encurta em 273 km de carris a distância até ao Porto do Lobito. Em 4 de Março de 2026, a multinacional Cascade Natural Resources aumentou o seu investimento estratégico para 165 milhões de dó lares, desbloqueando ainda um pacote de dívida de cerca de 160 milhões de dólares do banco sul africano ABSA Bank, garantido pelo US EXIM Bank. É um exemplo concreto de produção “da mina ao íman”, criando valor acrescentado local. Paralelamente, a mina de cobre de Mavoio-Tetelo, no Uíge, realizou as primeiras exportações significativas de concentrados em Janeiro de 2026.
A Sonangol, com sete concessões de exploração de minerais críticos, três de quartzo, uma de lítio e três de urânio (anunciadas a 25 de Fevereiro de 2026), sinaliza a diversificação para além do petróleo.
Angola aderiu ao Fórum Intergovernamental de Mineração em 10 de Fevereiro de 2026, tornando-se o 86.º membro e reforçando o compromisso com práticas responsáveis, transparência e sus tentabilidade. Do ponto de vista económico, esta é uma oportunidade de diversificação estrutural clássica.
A de pendência do petróleo expõe-nos a choques externos. Os minerais críticos oferecem uma vantagem comparativa ricardiana clara: recursos geológicos de alta qualidade, custos energéticos competitivos (graças ao potencial hidroe léctrico) e localização privilegiada no Atlântico Sul.
O Corredor do Lobito pode tornar se o eixo de pólos industriais que transformam a extração em refinação parcial, fabricação de com ponentes e até montagem de bate rias ou equipamentos de energias renováveis.
O potencial multiplicador é eleva do: cada dólar investido em mine ração responsável gera entre 2 e 4 dólares em actividade económi ca adicional (empregos diretos e indiretos, serviços locais, formação).
Com a juventude angolana em idade activa, investir em capacitação técnica — engenharia mineira, processamento metalúrgico e práticas de ESG (responsabilidade ambiental, social e de governança) — transforma o dividendo demográfico em dividendo económico real.
Mas o sucesso não é automático. Precisamos de uma política industrial inteligente: incentivos fiscais condicionados à transformação local, parcerias público privadas que garantam transferência de tecnologia, e um quadro regulatório previsível que atraia investimento responsável.
O Plano Nacional de Desenvolvi mento 2023-2027 e a Visão 2050 já apontam nesse sentido; agora é o momento de operacionalizar. Num mundo que procura cadeias de abastecimento resilientes, Angola pode ser parte da solução.
Os minerais críticos e as energias renováveis são o caminho para um crescimento com maior valor acrescentado, mais empregos dignos e maior soberania económica.
O conflito no Médio Oriente ser vê-nos de lembrete: a estabilidade geopolítica e a diversificação são activos estratégicos. Angola tem os recursos, a infraestrutura em construção e a vontade política. O futuro está literalmente de baixo dos nossos pés e é sustentável, tecnológico e totalmente nosso.
Por: VALDANO CANJINJI
*Economista e especialista em Direito Tributário







