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Epilepsia na população pediátrica no continente africano

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
22 de Setembro, 2025
Em Opinião

A epilepsia é uma condição neurológica caracterizada por crises recorrentes e imprevisíveis que afectam milhões de pessoas ao redor do mundo. No entanto, quando se trata de crianças, a epilepsia assume características únicas que representam desafios significativos em termos de diagnóstico, tratamento e gestão.

No continente africano, esses desafios são exacerbados por uma série de factores socioeconómicos, culturais e de infra-estrutura, tornando o manejo da epilepsia na população pediátrica uma questão de saúde pública urgente.

A prevalência da epilepsia na infância varia de acordo com a região do continente africano, mas estudos indicam que, em algumas áreas, a taxa de epilepsia pode ser até duas vezes maior do que em países desenvolvidos.

Estima-se que cerca de 2,4 milhões de pessoas com epilepsia vivam na África Subsaariana, com um grande número desses casos ocorrendo em crianças. A prevalência elevada pode ser atribuída a diversos factores, como infecções perinatais, doenças infecciosas e condições neurológicas não tratadas que afectam as crianças desde o nascimento.

Desafios no Diagnóstico e Tratamento 1. Falta de Diagnóstico Adequado:

O diagnóstico precoce da epilepsia é fundamental para garantir que as crianças recebam o tratamento adequado o mais rápido possível. Contudo, no contexto africano, a falta de recursos médicos e infra-estrutura adequada torna esse diagnóstico um grande desafio. Em muitas regiões, os profissionais de saúde enfrentam dificuldades para identificar correctamente as crises epilépticas, especialmente em áreas rurais onde a conscientização sobre a doença é limitada e onde muitas crianças são diagnosticadas apenas quando as crises já se tornaram graves.

2- Acesso Limitado a Medicamentos:

O tratamento da epilepsia em países africanos é frequentemente prejudicado pela escassez de medicamentos antiepilépticos essenciais. Embora medicamentos como o ácido valproico e a fenitoína sejam eficazes no controlo das crises, eles nem sempre estão disponíveis, e muitos pais não conseguem arcar com os custos, mesmo quando os medicamentos estão acessíveis em clínicas ou hospitais.

Além disso, os medicamentos disponíveis podem ser inadequados para o tratamento de casos graves, levando a um controlo ineficaz das crises e, consequentemente, ao sofrimento contínuo das crianças.

3- Baixa Qualificação Profissional:

A formação insuficiente de profissionais de saúde, especialmente em áreas remotas, contribui para a falta de diagnóstico preciso e o manejo inadequado da epilepsia. Os médicos e enfermeiros, em muitas regiões da África, não têm acesso a treinamento especializado em neurologia pediátrica ou em epilepsia, o que dificulta a identificação de diferentes tipos de crises e a escolha do tratamento apropriado.

Factores Sociais e Culturais
1. Estigma e Falta de Conscientização:

Em África, como em muitas partes do mundo, a epilepsia ainda é envolta em estigmas e mitos culturais. Muitas comunidades associam as crises epilépticas a possessões espirituais, punições divinas ou comportamentos sobrenaturais, o que pode levar ao isolamento social das crianças afectadas e de suas famílias. Esse estigma impede que as crianças recebam o apoio necessário e dificulta a adesão ao tratamento médico adequado.

2- Desafios Económicos:

As condições de fragilidade socioeconómica que ainda se verificam em várias regiões do continente africano também impactam o tratamento da epilepsia. Muitas famílias não têm acesso a cuidados médicos regulares devido a custos elevados de transporte até hospitais ou centros de saúde especializados. A falta de infra-estrutura e a distância de centros urbanos tornam ainda mais difícil para as crianças com epilepsia receberem acompanhamento adequado.

3- Impacto na Educação:

Crianças com epilepsia enfrentam obstáculos adicionais na educação. As crises podem ocorrer inesperadamente, prejudicando o desempenho escolar e a socialização. Além disso, muitas escolas não estão preparadas para lidar com alunos que têm epilepsia, resultando em discriminação e, por vezes, exclusão do sistema educacional.

Soluções Possíveis e Iniciativas

Apesar dos desafios, há uma série de iniciativas a ser implementadas para melhorar a situação da epilepsia pediátrica em África.

1- Campanhas de Conscientização:

Vários programas têm buscado aumentar a consciencialização sobre a epilepsia nas comunidades africanas. Organizações como a Liga Internacional contra a Epilepsia (ILAE) têm promovido campanhas educacionais para desmistificar a condição, combater o estigma e informar as famílias sobre as opções de tratamento disponíveis.

2- Programas de Treino de Profissionais de Saúde:

Alguns países africanos têm investido em programas de formação para capacitar médicos e enfermeiros na identificação e tratamento de epilepsia. Essas iniciativas visam melhorar a capacidade do sistema de saúde local para lidar com as necessidades específicas da população pediátrica.

3- Parcerias com Organizações Internacionais:

Organizações internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Aliança Internacional contra a Epilepsia têm trabalhado com governos africanos para desenvolver políticas públicas que melhorem o acesso a medicamentos antiepilépticos e o apoio necessário para o tratamento e a gestão da epilepsia.

4- Acesso a Tecnologias de Diagnóstico:

Investir em tecnologias de diagnóstico acessíveis, como electroencefalogramas (EEG) portáteis, pode ser uma solução viável para áreas com poucos recursos. Além disso, programas de telemedicina têm sido explorados para oferecer consultas neurológicas à distância, o que pode reduzir as barreiras geográficas e melhorar o diagnóstico precoce.

Conclusão

O desafio da epilepsia na população pediátrica africana é complexo, envolvendo uma combinação de factores médicos, sociais e económicos. Embora os obstáculos sejam significativos, o aumento da conscientização, o aprimoramento da formação dos profissionais de saúde e o fortalecimento da infra-estrutura de saúde pública podem contribuir para melhorar a qualidade de vida das crianças afectadas.

Uma abordagem integrada que leve em conta os contextos culturais e as necessidades locais é essencial para garantir que as crianças com epilepsia, em África, tenham acesso a cuidados adequados e possam viver de forma plena e saudável.

Por: MARIA ELENA LOPEZ DE ISEA

Neurologista Pediátrica

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