Na sala de aula vivem dois portugueses: o da norma e o da fala. O primeiro usa terno, fala com elegância e carrega consigo o peso dos manuais. O segundo anda descalço, fala alto, mistura sotaques e não pede licença para ser entendido. Um é estudado, o outro é vivido. E, por incrível que pareça, a escola ainda insiste em tratar um como herói e o outro como vilão.
O português da norma é o que aparece nas provas, nos livros e nas redacções. É o português “certo”, aquele que exige concordância, pronomes bem colocados e vírgulas bem comportadas. Já o português da fala é o da vida real — o que se ouve nos mercados, nas ruas, nas redes sociais, nas conversas de bairro. É o português que respira, muda e se adapta.
O problema é que a escola, muitas vezes, esquece que o aluno já chega falando português — só não o da gramática. Quando o aluno diz “nós já fomos lá ontem”, a gramática o corrige, chamando de redundância.
Mas na fala, essa repetição é natural: dá ênfase, sentimento, ritmo. A escola esquece que a língua não é feita apenas de regras, mas também de emoções. Ensinar a norma é importante, claro. É ela que garante a comunicação formal, a escrita académica, o acesso a contextos profissionais.
Mas ensinar apenas a norma é como ensinar um pássaro a voar com uma asa só. O aluno precisa entender que existe o português dos livros e o português da vida — e que ambos têm valor. O ensino da língua deve deixar de ser um tribunal onde o erro é crime. O erro é parte do processo, é a prova de que o aluno está a experimentar a língua.
O professor de português não deve ser apenas o “guardião das regras”, mas o mediador entre o que é formal e o que é real. Em Angola, essa discussão ganha ainda mais força. O português falado carrega marcas das línguas nacionais, do quimbundo ao umbundo, e essa mistura é uma riqueza, não uma falha. Palavras como kamba, maka e banga contam histórias, identidades, pertencimentos. Negar isso é negar a própria cultura linguística do país.
O desafio, portanto, é fazer da escola um espaço onde o português da norma e o português da fala possam conversar. Onde o aluno aprenda a usar o “português formal” sem precisar abandonar o seu jeito de falar. Porque ensinar língua não é apagar sotaques, é ampliá-los. No fim, o português que a escola ainda não entende é justamente o mais bonito: aquele que vive na voz do povo, cheio de ritmo, erros e criatividade — o português que não cabe nas regras, mas cabe em nós.
Por: ANDRÉ CURIGIQUILA








