Os almoços em família ou num grupo de amigos acabam sempre por revelar coisas inusitadas. Fala-se de tudo um pouco. É comum saber-se do estado anímico e até social em que cada um dos presentes – e até dos ausentes – se encontra. Há risos, abraços e, naqueles instantes em que o nível etílico de alguns aumenta, as conversas podem até resvalar para lá do que inicialmente se previa.
Nos últimos tempos, há assuntos que quase não passam em muitos locais em que estão reunidos parentes, amigos, vizinhos, colegas e até mesmo funcionários. Além da saúde e das condições em que se encontram os presentes, o mais comum tem sido saber como vão as coisas em Lisboa e arredores, onde uma parte significativa de gente endinheirada envia, nos últimos tempos, as suas famílias para viver, estudar e fazer negócios. Há dias vivemos um destes momentos.
Sem que tivéssemos dado conta, quase todos os ‘convivas’ resvalaram para um tema que ‘entrou de fininho’ e acabou por dominar a conversa durante largos minutos, porque, afinal, hoje parece que são poucos os angolanos que não tencionam obter uma casa em Portugal, Espanha ou em outras partes do continente europeu.
Por mais que muitos se esforcem, apresentando-se como cidadãos angolanos, exercendo, inclusive, cargos de proa no país, os seus corações acabam estando quase que exclusivamente naqueles países onde enviaram as suas famílias em busca de melhores condições de vida ou para proteger o que muitos retiraram de forma ilícita de Angola.
À medida que o tempo vai passando, os sinais vão se tornando cada vez mais alarmantes. São muitos políticos, independentemente das cores partidárias, gestores de empresas públicas, administradores, empresários, desportistas, músicos e tantos outros. Fica-se com a sensação de que o sentimento de pertença por Angola vai-se esfumando, razão pela qual, à saída, exibem os passaportes de outras nacionalidades e, à entrada, o mesmo.
Trata-se de um quadro que deve exigir uma maior reflexão de todos, muitos dos quais se mostram críticos à situação sócio-política do país, mas, na calada da noite, também sacam dos seus bolsos os documentos da segunda pátria. Não se constrói um país em que a sua nata se revê muito mais numa outra pátria, incluindo naquela que foi a sua colonizadora.
E Angola, infelizmente, vai vivendo de forma dramática este drama, não se acreditando que aqueles que preferem mandar para fora a maioria dos seus bens, activos e familiares produzam, de facto, normas, tomem decisões e procurem melhorar um espaço em que parece não acreditarem.





