Arrancou mais um ano lectivio. Finalmente. As batas brancas regressaram desde ontem às escolas. Mas, em muitos lares, algumas crianças permanecerão sentadas sem quaisquer esperanças de que venham a obter uma vaga por défice de salas de aulas em muitas partes do país, não obstante os esforços do Executivo para se debelar o problema.
O discurso feito há dois dias no Huambo pela nova ministra da Educação apontava para a existência de cerca de 10 milhões de alunos para o presente ano lectivo 2026 2027. Estarão divididos entre o ensino primário e secundário em toda a extensão do território nacional. Muitos destes meninos e meninas entram pela primeira vez.
Preencherão os espaços que se abriram em muitas escolas construídas recentemente, muitas pelo Executivo Central e outras pelos governos provinciais e administrações municipais no âmbito dos vários programas existentes que custaram largos milhares de milhões de kwanzas. Quando se escuta os pronunciamentos dos governadores provinciais, dos directores municipais de educação, assim como de outros responsáveis do sector, fica-se com a impressão de que muito ainda deve ser feito.
Qualquer um deles, quando confrontado sobre o número de crianças que deverão ficar fora do sistema de ensino, apresenta cifras aterradoras. Neste início de ano lectivo, por exemplo, ative-me ao discurso proferido pelo governador do Moxico, Ernesto Muangala. Garantiu que, na sua província, ficarão de fora mais de 60 mil crianças.
Não terão a possibilidade de se sentar numa carteira, com um caderno, lápis, aprender o abecedário, formar palavras e, consequentemente, a ler e a escrever. Como as crianças do Moxico, existirão outras milhares. Aqui mesmo em Luanda estarão outras.
Durante o processo de início das matrículas para o ano lectivo que agora arrancou, foram vários os encarregados de educação que tiveram de pernoitar defronte às escolas para conseguir uma vaga para os seus filhos, irmãos e outros parentes, sendo crível que muitos deles não terão sido bem-sucedidos.
A existência de uma criança fora do sistema de ensino é um problema para qualquer país. Quando já se contam aos milhares, então estamos diante de um dilema ainda maior, cujas consequências no futuro acabarão por ser muito mais nefastas.
Há necessidade de se adoptar uma espécie de Plano Marshal para o referido sector, sobretudo a nível das instituições primárias e secundárias. É possível, sim, com condições mínimas, distantes das sumptuosas estruturas educacionais que vimos em muitas localidades, erguer-se centenas de escolas, semelhantes às que surgiram no Programa Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), e reverter-se o quadro negro que ainda se apresenta.
Lembro-me de ter lido ou ouvido de arquitectos nacionais a possibilidade de se construírem em algumas localidades do país infra-estruturas com produtos locais que poderiam servir para atender a estas e outras necessidades prementes. Algumas soluções estão nas nossas mãos, embora depois se possa culminar com uma forte mobilização para a contratação de professores, técnicos administrativos e outros quadros para o sector.





