Por mais que o tempo passe, os meandros do fim do conflito armado em Angola serão sempre perpetuados. Como todas as guerras, as suas partes beligerantes acabam sempre por contar os seus mortos, feridos e prejuízos materiais, sejam eles poucos ou mais.
Em 2002, em Fevereiro propriamente, eram várias as cogitações que se faziam, por exemplo, em relação ao futuro do país, mas, sobretudo, do que restava da então rebelião armada, por causa dos sobreviventes, entre os quais valorosos chefes militares, muitos dos quais nem sequer acreditavam que pudessem sobreviver das agruras que haviam enfrentado antes.
A morte de Jonas Savimbi, depois de anunciada, era uma certeza. Há quem diga que ainda duvidasse na época, mas não havia mais nada por fazer quanto a isso, principalmente depois de o seu corpo ter sido apresentado aos jornalistas e à comunidade internacional, estendido numa chapa de alumínio debaixo de uma frondosa árvore no Lukusse, no Moxico.
O que veio a seguir, supúnhamos, seriam passos que deveriam aproximar os angolanos cada vez mais. Assinaram-se os Acordos de Paz, numa brilhante cerimónia no dia 4 de Abril, no antigo Palácio dos Congressos em Luanda, onde muitos dos presentes não se contiveram, acabando por deitar algumas lágrimas quando, ao som de Rui Mingas, os generais Armando da Cruz Neto, ainda vivo, e o Abreu Muengo Ukwatchitembo ‘Kamorteiro’ se abraçaram.
A cada ano que passa, quando me recordo destes momentos, vislumbro um país em que as reminiscências do passado deveriam ser colocadas à parte. Até porque o tempo fez com que os irmãos desavindos se aproximassem, uns que até então estavam há décadas nas matas se enraizassem nas grandes cidades, onde fazem as suas vidas longe de qualquer desaguisado, nem tão pouco com contorcionismo que até os que andavam por estas bandas conseguiram. Os 24 anos de paz, a serem assinalados dentro de um mês, já deveriam significar muito mais para os angolanos.
Há ainda muitas reminiscências de um passado quase acertado que alguns pretendem revigorar, quando se deveria construir a harmonia e uma convivência mais salutar. Por estes dias, o estado de saúde do jornalista Octávio Capapa, que esperamos que melhore rapidamente, veio destapar uma realidade quase que escamoteada, mas que ainda se parece presente e de forma muito marcante no seio de muitos indivíduos, sobretudo aqueles que, durante largos anos, o viam de um outro lado.
Nos tempos em que a desinformação e as fakes news circulam quase que à velocidade da luz, não vejo com qualquer estranheza muitas diatribes que determinados cidadãos, conhecidos e anónimos, publicam em relação aos demais, muitos somente por não terem pactuado com as posições políticas e militares que exerceram outrora.
Vindo de cidadãos anónimos, algumas pragas e sentenças quase de vida, seria o mais normal nos dias em que vivemos. Porém, ver responsáveis políticos, alguns com cargos de relevância em secretariados provinciais de organizações que auspiciam até o poder acabam por evidenciar, muitas das vezes, rancores e ódios incubados que levam muitos angolanos a se questionarem o que poderá acontecer um dia se estes chegarem ao topo da montanha.








