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OPAÍS

A velocidade não substitui a direcção

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
11 de Agosto, 2026
Em Opinião

Há uma pergunta que muitas crianças africanas fazem quando encontram um baobá pela primeira vez: “Porque é que esta árvore cresce tão devagar?” A resposta parece simples. Porque a natureza assim o quis. Mas talvez exista uma explicação mais profunda. Enquanto muitas árvores concentram toda a sua energia em crescer rapidamente, o baobá investe primeiro naquilo que quase ninguém vê.

Durante anos, fortalece as raízes, consolida o tronco e prepara-se para enfrentar secas, ventos e o peso do tempo. Só depois cresce em direcção ao céu. É precisamente por isso que algumas árvores desaparecem ao fim de poucas estações, enquanto o baobá continua de pé durante séculos, tornando-se parte da memória de uma comunidade, ponto de encontro de viajantes e símbolo de resistência. Talvez exista uma lição escondida nessa árvore. Vivemos numa época fascinada pela velocidade.

Queremos resultados imediatos. Empresas querem crescer depressa. Governos querem mostrar obras rapidamente. Organizações querem apresentar números antes de consolidar processos. Nas redes sociais, confundimos frequência com influência e visibilidade com relevância. Mas a velocidade, por si só, nunca garantiu um destino certo.

Há uma frase de Peter Drucker que permanece actual: “There is nothing so useless as doing efficiently that which should not be done at all.” Em tradução livre: não há nada mais inútil do que fazer com grande eficiência aquilo que nunca deveria ter sido feito A História confirma este princípio. Desde a independência, o Botswana escolheu um caminho pouco comum. Em vez de procurar resultados imediatos, investiu na construção gradual das suas instituições, na disciplina fiscal, na previsibilidade das políticas públicas e na valorização da estabilidade. O crescimento não aconteceu da noite para o dia.

Foi consequência de uma direcção consistente ao longo de décadas. Em contraste, vários países conheceram períodos de crescimento acelerado, impulsionados por recursos naturais ou momentos económicos favoráveis. No entanto, sem instituições sólidas, visão estratégica e continuidade, muitos desses avanços revelaram-se passageiros. A diferença raramente esteve na velocidade. Esteve na direcção. O mesmo acontece no desporto.

Organizar um grande evento internacional é importante. Mas o verdadeiro impacto não se mede apenas pela cerimónia de abertura, pelas medalhas conquistadas ou pelas imagens transmitidas para o mundo. Mede-se pelos treinadores formados, pelas crianças que passam a praticar desporto, pelas infra-estruturas que continuam úteis muitos anos depois e pelas oportunidades económicas que permanecem quando as luzes do evento se apagam.

Os eventos terminam. O legado fica. Ou não. Nas empresas acontece exactamente o mesmo. Estar permanentemente ocupado não significa estar a progredir. Reuniões sucessivas, centenas de mensagens, decisões tomadas à pressa e agendas preenchidas podem criar a ilusão de produtividade.

Mas actividade não é sinónimo de progresso. Progresso exige direcção. Talvez seja esse um dos maiores desafios da nossa geração. Vivemos rodeados de ferramentas que nos permitem fazer quase tudo mais depressa. A inteligência artificial, a automação e a tecnologia reduziram distâncias e aceleraram decisões. Contudo, nenhuma inovação consegue responder à pergunta mais importante: Para onde queremos ir? Essa resposta continua a depender da liderança, da visão e da coragem de escolher um caminho antes de começar a correr.

O baobá nunca teve pressa. E talvez seja precisamente por isso que atravessa gerações. Enquanto muitas árvores procuram crescer primeiro, ele escolhe fortalecer-se antes de desafiar o horizonte. As pessoas, as organizações e as nações que deixam verdadeiro legado fazem exactamente o mesmo. Porque a História raramente recompensa quem corre mais depressa. Quase sempre recompensa quem sabe para onde vai.

POR:EDGAR LEANDRO

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