Quando chegaram, trouxeram câmaras, palavras e a certeza de que alguém precisava ajudar. Trouxeram também sacos de arroz, colchões, um gerador e promessas. As crianças correram. Os adultos agradeceram. A miséria, velha conhecida, foi vista. Mais do que devia. As imagens circularam rápido. Houve quem aplaudisse, houve quem se revoltasse. Uns diziam que importa o resultado, não a intenção.
Outros perguntavam por que mostrar assim? Por que falar de fome como se fosse uma herança? No meio do barulho, poucos notaram que não havia escola naquelas imagens. Não havia biblioteca, nem cadernos, nem professores. Havia ajuda imediata, sem um futuro organizado. Então veio o Estado. Tarde, como quase sempre. Não para discutir educação, nem saneamento, nem o abandono histórico.
Veio com papéis, carimbos e suspensão. A ajuda parou. A polémica cresceu. As redes ferveram e cada lado escolheu um vilão conveniente. Ninguém perguntou por que uma comunidade inteira dependeu de estrangeiros com câmaras para ter luz elétrica. Ninguém perguntou por que crianças sabiam agradecer doações, mas não sabiam conjugar verbos.
Ninguém perguntou por que o debate era sobre quem filmou, e não sobre quem governou, ou seja, desgovernou. Os livros, que poucos lêem, nos ensinam que uma sociedade não falha de repente.
Ela é construída assim, aos poucos, com escolas que não se constroem; com professores mal pagos; com autoridades que assistem ao estupro e defendem o opressor; com a maioria que não concorda, mas se cala com medo de represálias; com artistas que usam a influência para abusar e destruir o conceito de família; com políticas que nunca chegam ao bairro de terra batida.
Para inverter este quadro é crucial perceber que a educação é mais importante do que as doações, é mais importante que as críticas ao enquadramento da câmara. A educação, infelizmente, não cabe num vídeo curto. Não rende aplausos imediatos. Ela exige continuidade, vontade política e coragem para assumir responsabilidades. A educação, conforme escreveu o Escritor do Meu Tempo, permite criar leis com humanidade e evitar que a cegueira se torne a norma.
Por: DITO BENEDITO
Escritor e Jornalista









