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A reconstrução da identidade africana na literatura angolana pós-independência

Jornal OPaís por Jornal OPaís
29 de Agosto, 2025
Em Opinião

Em um panorama de 50 anos de Independência Nacional, falar da reconstrução da identidade africana na literatura angolana pós-independência é, deveras, contextual, pois reza a história que primeiro alcançamos a independência literária e esta, por sua vez, impulsionou bastante para independência política.

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Ao refletir sobre a identidade africana, obviamente, revela-se necessário estabelecer as líneas divisórias entre a literatura colonial e a pós-colonial. Assim, de forma resumida, a literatura colonial, de facto, tem como característica essencial o homem europeu como centro do universo narrativo, entretanto a pós-colonial tem o homem africano.

Efetivamente, antes de adentrarmos na temática, vamos partir da periodização histórica, na primeira metade do século XX, há o surgimento de três importantes movimentos de afirmação identitária: o nativismo, o pan-africanismo e a negritude.

O surgimento desses movimentos, no fim do século XIX (nativismo e o resultado mais visível em Angola, neste movimento, foi a elaboração de um dicionário Kimbundu–Português, por António de Assis Junior 1887-1960) a seguir, isto é, na primeira metade do século XX (pan-africanismo e negritude), foi fundamental para a disseminação das ideias e a estruturação das diversas lutas anticoloniais que aconteceriam décadas mais tarde em várias das colônias europeias na África.

Neste longo percurso, nasce a literatura angolana escrita que, segundo Rita Chaves, surge assim não como simples necessidade estética, mas como arma de combate pela afirmação do homem angolano”.

Percebe-se que a literatura angolana sempre funcionou historicamente como um poderoso instrumento de resistência política e de imaginação nacional. Com efeito, a literatura angolana pós-independência desenvolveuse a partir de importantes movimentos literários que surgiram durante o período colonial e que estabeleceram as bases para uma expressão literária genuinamente angolana.

Um movimento crucial neste contexto foi o “Vamos Descobrir Angola”, iniciado pela geração da revista “Mensagem” nos anos 1940, que buscava criar uma literatura autônoma, enraizada nas línguas e culturas africanas.

É, no período pós-independência, que as línguas angolanas ganham estatuto de línguas nacionais. Deste modo, a literatura angolana buscou fortalecer a cultura africana, valorizando os valores ancestrais, as línguas nativas, a linguagem oral e refletir as experiências realísticas da população angolana, ou seja, nesta época, assiste-se uma literatura de caráter nacional.

A ser assim, temos a descrever alguns escritores angolanos que retratam a busca por identidade após pós-independência: Uanhenga Xitu, Luandino Vieira, Pepetela, Domingos Van-Dúnem e José Mena Abrantes e outros. José Luandino Vieira é considerado, na lides literárias, como um dos pioneiros da moderna literatura angolana, os seus contos, particularmente os reunidos em “Luuanda” e “Velhas estórias” (1963-1964), apresentam uma linguagem inovadora que mistura o português com expressões do kimbundu.

Manuel Pedro Pacavira, em “Nzinga Mbandi” (1975), obra publicada no ano da independência que recupera a figura histórica da rainha Nzinga como símbolo da resistência angolana contra o invasor europeu, contribuindo para a construção de uma narrativa nacionalista baseada em personagens históricas. Pepetela: Um dos mais importantes romancistas angolanos, aborda em suas obras temas relacionados à história e identidade nacional.

Em “A gloriosa família: o tempo dos flamengos” (1997), o autor revisita o período histórico da ocupação holandesa em Angola e reinterpreta a figura da Rainha Nzinga.

Domingos Van-Dúnem e José Mena Abrantes: Importantes dramaturgos angolanos, com VanDúnem iniciando sua carreira em 1970 e Abrantes dirigindo o grupo teatral Elinga-Teatro entre 1990- 2018. Suas obras teatrais são descritas pela forte presença de raízes literárias angolanas e matrizes narrativas que expressam as experiências existenciais de uma África violada pela colonialidade.

À de conclusão, a literatura angolana no pós-independência, na actualidade, é um espaço de reflexão sobre a identidade nacional, que busca conciliar a herança colonial com identidade africana autêntica e, por outras palavras, é uma forma de repensar a nação, o povo e seus valores por meio da literatura.

Por: JOÃO CUNHA

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