Em um panorama de 50 anos de Independência Nacional, falar da reconstrução da identidade africana na literatura angolana pós-independência é, deveras, contextual, pois reza a história que primeiro alcançamos a independência literária e esta, por sua vez, impulsionou bastante para independência política.
Ao refletir sobre a identidade africana, obviamente, revela-se necessário estabelecer as líneas divisórias entre a literatura colonial e a pós-colonial. Assim, de forma resumida, a literatura colonial, de facto, tem como característica essencial o homem europeu como centro do universo narrativo, entretanto a pós-colonial tem o homem africano.
Efetivamente, antes de adentrarmos na temática, vamos partir da periodização histórica, na primeira metade do século XX, há o surgimento de três importantes movimentos de afirmação identitária: o nativismo, o pan-africanismo e a negritude.
O surgimento desses movimentos, no fim do século XIX (nativismo e o resultado mais visível em Angola, neste movimento, foi a elaboração de um dicionário Kimbundu–Português, por António de Assis Junior 1887-1960) a seguir, isto é, na primeira metade do século XX (pan-africanismo e negritude), foi fundamental para a disseminação das ideias e a estruturação das diversas lutas anticoloniais que aconteceriam décadas mais tarde em várias das colônias europeias na África.
Neste longo percurso, nasce a literatura angolana escrita que, segundo Rita Chaves, surge assim não como simples necessidade estética, mas como arma de combate pela afirmação do homem angolano”.
Percebe-se que a literatura angolana sempre funcionou historicamente como um poderoso instrumento de resistência política e de imaginação nacional. Com efeito, a literatura angolana pós-independência desenvolveuse a partir de importantes movimentos literários que surgiram durante o período colonial e que estabeleceram as bases para uma expressão literária genuinamente angolana.
Um movimento crucial neste contexto foi o “Vamos Descobrir Angola”, iniciado pela geração da revista “Mensagem” nos anos 1940, que buscava criar uma literatura autônoma, enraizada nas línguas e culturas africanas.
É, no período pós-independência, que as línguas angolanas ganham estatuto de línguas nacionais. Deste modo, a literatura angolana buscou fortalecer a cultura africana, valorizando os valores ancestrais, as línguas nativas, a linguagem oral e refletir as experiências realísticas da população angolana, ou seja, nesta época, assiste-se uma literatura de caráter nacional.
A ser assim, temos a descrever alguns escritores angolanos que retratam a busca por identidade após pós-independência: Uanhenga Xitu, Luandino Vieira, Pepetela, Domingos Van-Dúnem e José Mena Abrantes e outros. José Luandino Vieira é considerado, na lides literárias, como um dos pioneiros da moderna literatura angolana, os seus contos, particularmente os reunidos em “Luuanda” e “Velhas estórias” (1963-1964), apresentam uma linguagem inovadora que mistura o português com expressões do kimbundu.
Manuel Pedro Pacavira, em “Nzinga Mbandi” (1975), obra publicada no ano da independência que recupera a figura histórica da rainha Nzinga como símbolo da resistência angolana contra o invasor europeu, contribuindo para a construção de uma narrativa nacionalista baseada em personagens históricas. Pepetela: Um dos mais importantes romancistas angolanos, aborda em suas obras temas relacionados à história e identidade nacional.
Em “A gloriosa família: o tempo dos flamengos” (1997), o autor revisita o período histórico da ocupação holandesa em Angola e reinterpreta a figura da Rainha Nzinga.
Domingos Van-Dúnem e José Mena Abrantes: Importantes dramaturgos angolanos, com VanDúnem iniciando sua carreira em 1970 e Abrantes dirigindo o grupo teatral Elinga-Teatro entre 1990- 2018. Suas obras teatrais são descritas pela forte presença de raízes literárias angolanas e matrizes narrativas que expressam as experiências existenciais de uma África violada pela colonialidade.
À de conclusão, a literatura angolana no pós-independência, na actualidade, é um espaço de reflexão sobre a identidade nacional, que busca conciliar a herança colonial com identidade africana autêntica e, por outras palavras, é uma forma de repensar a nação, o povo e seus valores por meio da literatura.
Por: JOÃO CUNHA