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A independência mal compreendida: memórias de Onofre dos Santos no 11 de Novembro

Jornal OPaís por Jornal OPaís
24 de Outubro, 2025
Em Opinião

Há uma pergunta à qual nós, jornalistas, somos quase sempre tentados a recorrer quando entrevistamos alguém disposto a falar sobre a Independência Nacional. À primeira vista, pode parecer uma simples pergunta retórica, mas, na verdade, pode suscitar respostas capazes de mudar a forma como o leitor, o ouvinte ou o telespectador compreende os factos ocorridos antes, durante e nos primeiros dias que se seguiram à histórica noite de 11 de Novembro de 1975.

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Essa pergunta costuma despertar entusiasmo em alguns entrevistados e, noutros, sobretudo nos ligados ao partido no poder, um certo sentimento de vaidade que frequentemente resulta em respostas menos agradáveis. Nota-se logo a diferença: enquanto alguns falam movidos pelo sentido de dever histórico, outros julgam que já não há nada a acrescentar, preferindo o silêncio.

Esquecem-se, porém, de que os leitores, ouvintes e telespectadores de ontem (os do 11 de Novembro do ano passado) podem não ser os mesmos que acompanharão as informações que os órgãos de comunicação social divulgarão por ocasião das celebrações dos 50 anos da nossa Dipanda. Essa vaidade que hoje os cega acabará, certamente, por acelerar o esquecimento dos seus feitos, num país em que o preço dos livros afasta leitores, o custo de produção asfixia editoras e atormenta quem ousa escrever.

Para agravar, entre os protagonistas ainda vivos da nossa história recente, poucos se desafiam a escrever as suas memórias ou testemunhos do que viveram. Felizmente, nem tudo está perdido. Há bons exemplos que contrariam essa tendência, e um deles é o do juiz jubilado Onofre dos Santos, que, mais do que responder à pergunta “onde esteve na histórica madrugada de 11 de Novembro?”, conduz o leitor numa viagem épica por um tempo de incertezas.

Nos seus apontamentos, que resultaram na obra “Os (meus) Dias da Independência: testemunhos”, Onofre revela como a mais alta cúpula da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) viveu aquela noite decisiva, indo além da informação superficial de que Holden Roberto proclamou a independência de Angola a partir do Ambriz, enquanto os seus guerrilheiros travavam uma acérrima batalha em Kifangondo.

Ao mesmo tempo, Jonas Savimbi, líder da UNITA, fazia o mesmo no Huambo, tentando avançar sobre Luanda, onde Agostinho Neto, então presidente do MPLA, proclamava oficialmente a independência no Largo 1.º de Maio.

O seu relato mostra o lado humano e caótico de um tempo em que Angola nascia fragmentada, visto que os três angolanos signatários dos Acordos de Alvor dividiram o novo país em três. Unificálo seria o grande desafio seguinte, sobretudo porque os dois movimentos que se encontravam fora de Luanda tentavam, desde o dia 9 de Novembro, entrar na capital, sem sucesso.

Mas, afinal, onde estava, à meianoite do dia 10 para 11, o “kaluanda” que viria a tornar-se juiz do Tribunal Constitucional, director-geral das Eleições (em 1992) e um contista de fina pena? Precisamente à meia-noite desse dia, Onofre dos Santos encontrava-se a bordo de uma aeronave Friendship, na rota Kinshasa– Ambriz, acompanhado apenas do amigo Miguel Quina. O avião, sem assentos nem porta de cabine, servia também para transporte de carga.

Desta vez, sem mercadorias a bordo e tomado por um frio cortante, Onofre deitou-se numa velha maca, indiferente à sujidade, determinado a estar presente em Angola no primeiro dia da sua independência. Levantaram voo na calada da noite, após participarem numa conferência de imprensa conjunta da UNITA e da FNLA, em Kinshasa, realizada após a queda do Governo de Transição, com a expulsão dos líderes destes movimentos para fora de Luanda.

Ao entrarem em território angolano, em Matadi, Miguel Quina felicitou o amigo: era o primeiro cidadão a sobrevoar o mais jovem país do mundo. A pista de terra batida do Ambriz (hoje transformada parcialmente em zona para autoconstrução dirigida), enlameada pela chuva e iluminada apenas por alguns archotes, mal permitia aos pilotos orientar-se durante o pouso.

Ao verem a aeronave sobrevoar duas vezes a vila, Holden e os seus homens ficaram em alerta, suspeitando tratar-se de um avião inimigo vindo de Luanda. Assim que a porta se abriu, Onofre deparou-se com uma pequena multidão ansiosa, carregada de preocupação e tensão.

O ambiente de euforia que ainda se sentia nas primeiras horas da independência contrastava com a dor visível dos dirigentes e militantes da FNLA, que choravam os combatentes tombados na Tentativa (actual província do Bengo), após a frustrada ofensiva para tomar Luanda.

Entre os rostos, reconheceu Hendrick Vaal Neto, Fernando Cascudo (conselheiro brasileiro de Holden Roberto) e o próprio líder da FNLA, que o recebeu com um sorriso de alívio e um abraço caloroso. A convite de Holden, Onofre acompanhou-o até a sua casa, uma modesta moradia nos arredores do Ambriz. Pelo caminho, conversaram sobre o susto que o avião provocara.

Holden procurou desanuviar o ambiente com humor, dizendo-lhe que tivera sorte de não ser abatido, pois, a aeronave fora confundida com um avião inimigo. “Rimos um pouco para descontrair”, recorda Onofre, “sabendo bem que o verdadeiro perigo estava para lá da Tentativa.”

Durante a conversa, Holden comentou o acordo celebrado horas antes com a UNITA, deixando claro que se tratava de uma aliança frágil, “um casamento de conveniência difícil de sustentar”.

Preocupado com a visão realista do líder, o jovem Onofre, que sonhava ser ministro da Justiça e “endireitar os caminhos do futuro”, caminhou sozinho pelas ruas do Ambriz até quase ao amanhecer, mergulhado em reflexões sobre o destino do país que nascia dividido. Na manhã do dia 11, tentou observar algo que o diferenciasse dos dias anteriores.

Quase nada. Na rua principal, a bandeira da FNLA já tremulava desde cedo, como acontecia há meses. A bandeira portuguesa só voltaria a ser içada à meia-noite, apenas para cumprir o protocolo da substituição.

“Gente passando indiferente à data, alguns militares indo de um lado para o outro sem saber bem para onde”, recorda Onofre. A única nota realmente positiva do dia foi o convite para almoçar na casa do presidente Holden.

Para ele, era uma oportunidade rara de comer algo decente, num lugar onde “faltava tudo”. Juntaram-se Hendrick, Cascudo, Quina e Pedro Filipe, prolongando a conversa até ao anoitecer.

De noite, ainda pensativo sobre o destino que teria o país depois daquele dia, juntou-se aos seus “irmãos”, forma carinhosa como se tratam os militantes da FNLA, na messe dos oficiais, onde a noite terminou com música, discursos e um clima de aparente normalidade, “como se tudo estivesse no melhor dos mundos”.

Vinte e quatro horas depois, o jovem Onofre, que sonhava com um sistema de justiça justo e moderno para as gerações vindouras, confessou-se cansado daquela independência que, nas suas palavras, “começara mal e fora mal compreendida”.

Cinco décadas depois, as palavras e memórias de Onofre dos Santos soam menos como um desabafo e mais como um aviso. A independência que nasceu entre incertezas e vaidades continua a pedir leitura atenta e coragem para ser entendida.

Neste momento de transição geracional que o país vive, é tempo de corrigir os erros, não para reescrever o passado, mas para impedir que as gerações vindouras paguem a mesma factura que a nossa ainda paga pelos equívocos de ontem.

A memória dos que viveram o 11 de Novembro deve servir de bússola, não de relíquia, para que a liberdade conquistada com tanto sacrifício não se transforme, mais uma vez, numa promessa adiada.

Jornalista

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