Angola é um país rico e diversificado, resultado da aliança de diferentes povos de etnia bantu, como os ovimbundu, ambundu e bakongu. Depois de mais de quatro séculos de colonização de Portugal, o país sofreu várias misturas com outras culturas, manifestando se pela língua oficial portuguesa e anunciando a música como uma das suas maiores riquezas com ritmos de kizomba, cabetula, semba, rebita, kilapanga e, principalmente, o kuduro, que ainda hoje é o estilo musical de animação nas noites de festas.
Segundo a pesquisadora Campos (2014), o kuduro nasceu de uma mistura de música electrónica com ritmos tradicionais angolanos. O kuduro surgiu em Luanda, capital de Angola, nos anos 1990. Logo se espalhou por Angola e pela África e ganhou pistas de dança da Europa, a partir de Portugal.
Em meados da década de 1990, essas batidas de música electrónica acabaram reunindo pessoas em festas ou na rua. Nesse momento surgiu um músico, o Tony Ama do, que também é produtor e dançarino, que inventou uma dança que, segundo ele, seria inspirada nos filmes de luta norte-america na do Jean Claude Van Damme.
Ele acabou dando o nome de Kuduro (Campos, 2014). Assim, o que nos anos 1990 come çou como ritmo de rebeldia, festa, denúncia social e energia comunitária, hoje passa por novas encarnações nesta chamada “geração do adoço”.
Ora, a expressão “adoço”, que se popularizou pela forte in fluência do kudurista Sebem, em meados de 2006, e agora, com os kuduristas Neru Americano, Scró Que Cuya e Tsunami, embora ainda sendo um termo em construção pela juventude angolana, costuma aludir a um som mais suave, com produções visuais mais apelativas, forte presença do corpo, sensualidade explícita ou implícita, confecções de marketing visual e uma busca de viralidade nas redes sociais.
E é esta tendência que levanta questões profundas sobre a identidade do artista, valores culturais, limites artísticos e até mesmo consequências sociais.
No presente artigo, objectivo-me a procurar explorar os diferentes lados desta dicotomia, analisar os impactos, defesas e críticas, e oferecer uma reflexão sobre o que a cultura angolana — e em particular a juventude — poderá ganhar ou per der nesse quesito. Para se entender o que está em jogo, é necessário reflectirmos que, mais do que ritmo de festa, inicialmente o kuduro era como uma manifestação das periferias, veículo de denúncia para jovens que não tinham espaços formais de expressão artística.
As vozes agres sivas, muitas vezes cruas, sem conhecimento científico de canto, e a dança intensa, tudo isso reforçava uma identidade contracultural urbana.
Por estes motivos, a “geração do adoço” traz consigo tensões inevitáveis: entre liberdade e responsabilidade, entre mercado e identidade, entre inovação e preservação, entre visibilidade e profundidade, entre as danças provo cativas sexualizadas e a ausência de conteúdos que apelam à moralidade social.
Ora, o adoço é a inovação legítima do kuduro, adaptando-se à contemporaneidade e à sua profundidade estética comturais, limites artísticos e até mesmo consequências sociais.
No presente artigo, objectivo-me a procurar explorar os diferentes lados desta dicotomia, analisar os impactos, defesas e críticas, e oferecer uma reflexão sobre o que a cultura angolana — e em particular a juventude — poderá ganhar ou per der nesse quesito. Para se entender o que está em jogo, é necessário reflectirmos que, mais do que ritmo de festa, inicialmente o kuduro era como uma manifestação das periferias, veículo de denúncia para jovens que não tinham espaços formais de expressão artística.
As vozes agres sivas, muitas vezes cruas, sem conhecimento científico de canto, e a dança intensa, tudo isso reforçava uma identidade contracultural urbana.
Por estes motivos, a “geração do adoço” traz consigo tensões inevitáveis: entre liberdade e responsabilidade, entre mercado e identidade, entre inovação e preservação, entre visibilidade e profundidade, entre as danças provo cativas sexualizadas e a ausência de conteúdos que apelam à moralidade social.
Ora, o adoço é a inovação legítima do kuduro, adaptando-se à contemporaneidade e à sua profundidade estética com o compromisso social, buscando autenticidade.
Seria injusto julgar os novos kuduristas como promotores da promiscuidade, pois muitos deles também são criativos, corajosos, e estão apenas a explorar, partilhar a sua arte e a afirmar-se num mundo globalizado. Cada geração reinterpreta seus códigos de linguagem, e parte da arte é justa mente provocar, chocar, quebrar tabus.
E o corpo, a sensualidade e o estilo são meios legítimos dessa expressão. O artista não tem inclinações éticas. Uma inclinação ética em um artista é um maneirismo imperdoável de estilo, Wilde (1900).
Assim, se a cultura é feita de narrativas, estética e pertença, e o adoço for apenas adoçar para vender, sem substância, corre-se o risco de adoecer a cultura.
Mas, se for adoçar para expressar, transformar, afirmar, então pode ser uma fase rica de inovação do kuduro ou da arte. Portanto, a geração do adoço não precisa ser banida; precisa ser interpretada, acompanhada e desafiada.
Ao mesmo tempo, cabe à sociedade — jornalistas, académicos, artistas, público — manter vigilância crítica: perguntar, analisar, debater, e não apenas julgá-los.
Por: ALFEU JOEL CHIQUITO









